Contar Áfricas! Exposição temporária, Padrão dos Descobrimentos, Lisboa

Apresentação por Ana Rita Amaral

Está patente até dia 21 de Abril, no Padrão dos Descobrimentos, em Belém (Lisboa), a exposição temporária Contar Áfricas!, coordenada pelo historiador António Camões Gouveia, investigador do CHAM – Centro de Humanidades e docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.

A exposição decorre de um convite feito a mais de quatro dezenas de investigadores e especialistas, que seleccionaram e escreveram sobre objectos muito diversos, provenientes tanto de arquivos e museus públicos, como de colecções privadas. Participaram na exposição os seguintes investigadores do GI Impérios:

Ângela Barreto XavierRealeza – A partir de: “Cabeça da rainha Ídia”, em bronze, do reino do Benim, actual Nigéria (colecção do Centro Internacional das Artes José de Guimarães). Esta escolha pretendeu convidar a uma reflexão sobre dimensões como a sofisticação, as formas de poder e o papel da mulher em algumas realezas africanas, bem como a relação destas com a arte.

João VasconcelosDuração – A partir de: “Pano d’obra Bicho”, adquirido em 1963 na Ilha de Santiago, Cabo Verde, por António Carreira para o então Museu de Etnologia do Ultramar (hoje Museu Nacional de Etnologia). Através desta peça, João Vasconcelos faz um recuo pela história da região da África Ocidental, salientando a permanência secular das técnicas de fabrico e padrões decorativos destes panos de Cabo Verde.

Filipa Lowndes VicenteMulher – A partir da fotografia “Mulher com pano” (colecção particular), Filipa Vicente escreve sobre o seu encontro com esta fotografia numa feira de rua em Lisboa e sobre o modo como esta se pode tornar um “documento histórico”. Camada por camada, começa por notar a ausência imediata de referentes espaciais e temporais na fotografia, para depois se debruçar sobre o texto manuscrito nas costas da imagem, que nos remete para Angola anterior a 1961, e finalmente para o padrão do pano que a mulher traz vestido, reproduzindo um desenho de Winston Churchill, que abre a fotografia para uma série de interrogações. Filipa Vicente termina por salientar a anulação da subjectividade das pessoas fotografadas pelo texto manuscrito, que as tipifica e racializa, e a resistência final da dignidade e do olhar da mulher fotografada com o seu filho ou filha ao colo.

Nuno DomingosDiscriminar – A partir da camisola do jogador Eusébio da Silva Ferreira ao serviço do Sport Lisboa e Benfica (colecção do Museu do Benfica). Se em 2015, esta camisola foi usada na cerimónia de entrada do jogador no Panteão Nacional, Nuno Domingos escreve sobre a outra história de África que através dela pode ser contada: a do futebol jogado nos subúrbios pobres e segregados de Lourenço Marques colonial e a do papel paradoxal deste desporto como veículo de propaganda colonial e como depósito de aspirações e autonomia africana.

Ricardo RoqueArquivo – A partir de “Carta de D. Sebastião Agombe, Dembo Quilumbo Quacongo, a D. Sebastião Francisco, Dembo Caculo Cazenga, 1913” (Arquivo Histórico Ultramarino). Esta carta mostra a existência de arquivos produzidos e mantidos por africanos, nomeadamente contando a história do arquivo dos Estados ou chefaturas Ndembu em Angola, trazido para Portugal pelo antropólogo António de Almeida em 1934, e que foi recentemente redescoberto e reconhecido como Património da Humanidade pela UNESCO (2011).

Ricardo Roque, com Cristina Sá ValentimCipale – A partir da canção “Muambuâmbua”, 1954 (Museu da Ciência da Universidade de Coimbra). Trata-se de uma canção sobre o cipale, trabalho forçado, imposto às populações africanas na região da Lunda, controlada pela Companhia de Diamantes de Angola. Tendo sido gravada em 1954 enquanto exemplo de “folclore musical nativo”, a canção retrata a história da deserção de um homem e das práticas de violência, servindo ao mesmo tempo de aviso aos fugitivos.

Desde Novembro passado, a exposição tem contado ainda com um programa paralelo que inclui visitas conversadas (com alguns dos investigadores convidados), visitas acessíveis (com língua gestual portuguesa e áudio-descrição) e visitas orientadas para as escolas, bem como encontros no auditório.

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