«Fotografia: Arquivo, Teoria, História» Escola de Verão, ICS-ULisboa, Setembro de 2017, por Filipa Lowndes Vicente

O interesse pela fotografia enquanto objecto de reflexão no âmbito das ciências sociais e humanas é cada vez maior. Ao conceber e coordenar a Escola de Verão Fotografia: Arquivo, Teoria, História, que decorreu no ICS-UL entre 18 e 22 de Setembro de 2017, tentei explorar alguns dos caminhos teóricos, históricos e críticos que se têm centrado na fotografia, mas também oferecer aos participantes a possibilidade de contactar diretamente com o objecto-fotografia e com os espaços onde ele se encontra. A Maria Goretti Matias, responsável pela Pós-Graduação, e a Cláudia de Andrade, responsável por todo o apoio às Escolas de Verão, contribuíram para que tudo corresse o melhor possível.

Foram assim, cinco temas em cinco dias, em que as manhãs decorreram sempre no ICS a ouvir e a dialogar com os oradores convidados para, à tarde, visitar vários lugares da cidade de Lisboa: arquivos, exposições, museus, coleções e também um estúdio fotográfico, onde a fotografia não se guarda mas se produz, como aconteceu ali mesmo à nossa frente, segundo técnicas inventadas no século XIX. Na sala do ICS onde decorriam os trabalhos também estavam duas mesas: numa delas, uma seleção de todos os livros da Biblioteca ICS que se relacionavam com o tema da Escola; numa outra foi diariamente montada uma exposição diferente de acordo com o tema do dia.

Exposições de fotografias diversas dos séculos XIX e XX (col. privada), mudadas diariamente de acordo com o tema, numa mesa da Sala Polivalente do ICS-ULisboa. Set. 2017. Fotografias de Larissa R. Cunha
  1. Teoria e História da Fotografia

Na primeira manhã Paulo Catrica, simultaneamente fotógrafo e historiador, também com uma vasta experiência de ensino, deu-nos uma visão panorâmica dos estudos sobre fotografia e da vasta bibliografia que hoje existe sobretudo em língua inglesa. À tarde, atravessámos a pé o campus universitário e fomos ter à Torre do Tombo, para duas visitas distintas: primeiro, tivemos o privilégio de fazer uma visita guiada com Vitor Serrão, historiador de arte e coorganizador da exposição Vergílio Correia (1888-1944): um olhar fotográfico. Homem de todos os ofícios, Virgílio Correia fez da prática fotográfica uma aliada da escrita e das suas viagens pelo país. O seu itinerário português deveria concentrar-se na arquitetura mas, como revela o seu vastíssimo espólio fotográfico até aqui desconhecido, foi muito para além disso. Ao tornar-se observador das populações, sobretudo as mais pobres e rurais, mulheres, homens e crianças sem nome, a trabalhar na terra, no artesanato ou no comércio, além de observador das igrejas e monumentos, o historiador da arte tornou-se também etnógrafo.

Interior da exposição Vergílio Correia (1888-1944): um olhar fotográfico, Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha
O arquivista Fernando Costa mostra-nos alguns documentos fotográficos do vasto espólio do Arquivo Nacional Torre do Tombo. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha

Seguimos depois para uma sala do Arquivo Nacional da Torre do Tombo onde o arquivista Fernando Costa, nos fez uma apresentação muito útil acerca dos principais espólios fotográficos da riquíssima coleção do Arquivo e nos explicou quais os passos para os podermos usar: as milhares de fotografias do jornal O Século, da Flama como do Diário da Manhã ou da Época; espólios fotográficos de instituições tão centrais à história portuguesa do século XX como foi o Secretariado Nacional de Informação (SNI), ou a Agência Geral do Ultramar (AGU) e a Companhia de Moçambique, dois arquivos especialmente ricos para a história recente do colonialismo português. A Torre do Tombo possui também conjuntos de fotografia associados a pessoas individuais, como é o caso de vários presidentes da República ou de personagens como Paiva Couceiro, político, militar e administrador colonial que viveu entre 1861 e 1944, período em que a fotografia se democratizou e banalizou globalmente. Durante a visita tivemos oportunidade de ver – e tocar, com luvas – muitos exemplos destes espólios fotográficos. Para lá da visualização digital, um dos propósitos da Escola de Verão foi precisamente o de promover o contacto com a materialidade da fotografia, com o objecto tridimensional que o écran de computador tende a uniformizar e simplificar. Acabámos a visita numa sala que, sendo um espaço fundamental de qualquer arquivo, não está disponível aos leitores – o lugar onde especialistas em restauro trabalham na preservação dos objetos do arquivo, os manuscritos, livros e fotografia. A Carla Lobo mostrou-nos vários exemplos distintos de tecnologias fotográficas e os respectivos desafios para a sua conservação e restauro. Também contámos com o saber e entusiasmo de Silvestre Lacerda, Diretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, ele próprio muito interessado em fotografia.

  1. História da fotografia portuguesa: os primeiros tempos

O tema do segundo dia foi a história da fotografia portuguesa. Começamos por ouvir a Margarida Medeiros, professora de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova de Lisboa com uma vasta obra publicada sobre fotografia, e a Emília Tavares, curadora para a área da fotografia e novos media do Museu do Chiado e também autora de vários trabalhos fundamentais sobre fotografia. Em 2015, a Emília e a Margarida foram as curadoras de uma interessantíssima exposição que teve lugar no Museu do Chiado em Lisboa e no Museu Soares dos Reis, no Porto, Tesouros da Fotografia Portuguesa no século XIX e foi sobre este projeto que nos vieram falar. Não existe “uma” história da fotografia portuguesa, mas “várias” histórias. Na história que elas contaram, através da exposição e catálogo, a fotografia foi pensada a partir de temas diferentes, com múltiplos autores e com critérios que desafiam a ideia de validade estética com que por vezes a história da arte limitou a fotografia. Ainda nessa manhã, ouvimos o Nuno Borges de Araújo – investigador em história da fotografia, fotógrafo e também colecionador – com uma apresentação onde ficámos a saber mais sobre os diferentes formatos e usos da fotografia oitocentista: a passagem da imagem única para a imagem reproduzida, uma revolução tecnológica que transformou a fotografia no documento visual dominante da contemporaneidade; as tensões entre as práticas autodidactas e as profissionais; ou a mobilidade fotográfica, favorecida pela carte-de-visite, o retrato em formato pequeno que podia ser enviado pelo correio e que pode ser considerado na genealogia da selfie contemporânea.

Logo a seguir às apresentações, sempre na Sala Polivalente logo à entrada do edifício do ICS-ULisboa, subimos ao primeiro andar onde se encontra o Arquivo de História Social, dentro da Biblioteca, coordenada por Paula Costa. No Arquivo, coordenado pela historiadora do ICS-ULisboa, Rita Almeida de Carvalho, fomos recebidos pela equipa formada por Madalena Reis e Andreia Parente, funcionárias da Biblioteca, e por Maria Coutinho, doutorada em História da arte, e desde há algum tempo a trabalhar na inventariação do Arquivo, um lugar com Fundos muito ricos, vários ainda por trabalhar. Uma das características destes Fundos é o de conterem vários tipos de documentação, manuscritos, livros, fotografias, folhetos ou posters e de eles próprios favorecerem uma visão holística, onde os diferentes materiais associados a uma biografia específica, não devem ser separados.

Vimos alguns exemplos de fotografia pertencentes a Fundos Documentais de origem particular: o Espólio Pinto Quartim, jornalista, onde se encontra o arquivo fotográfico da revista anarquista Renovação, muito interessante para quem queira estudar o movimento anarquista e a resistência política ao Estado Novo; a documentação que pertenceu a Alfredo Henrique Pinto da Silva, importante republicano e pastor protestante que se destacou na luta anti-esclavagista no contexto colonial português, tendo sido fundador da Sociedade Anti-Esclavagista. O Arquivo tem ainda vários outros Fundos, como aquele relacionado com o Movimento Nacional Feminino, fundado por Cecília Supico Pinto, ainda a ser inventariado, ou uma colecção de propaganda do Eixo e dos Aliados da II Guerra Mundial. Um lugar a visitar, aberto a investigadores e já com muita informação escrita e visual disponível online.

Três momentos da realização de uma fotografia: demonstração da tecnologia fotográfica oitocentista do colódio húmido por Rute de Carvalho Magalhães. Uma participante da Escola de Verão fotografa com o seu telemóvel o último momento do processo de revelação. Silverbox, Lisboa. Set. 2017. Fotografias de Larissa R. Cunha

Nessa tarde fizemos uma dupla visita, ambas na zona do Rato. Primeiro, fomos à Silverbox onde a Rute de Carvalho Magalhães fez uma demonstração de uma tecnologia fotográfica oitocentista, o colódio húmido, que teve no fotógrafo Carlos Relvas (1838-1894) um dos seus principais adeptos. O andar da Rua Braancammp, de tectos altos e estilo arte nova contribuiu para a recriação de um estúdio fotográfico oitocentista onde duas pessoas escolhidas por sorteio tiveram o privilégio de ser fotografadas com esta técnica. Seguiu-se uma demonstração de todo o processo de revelação no laboratório escuro onde se deu a primeira exposição da placa aos químicos que lhe fixaram a imagem. Seguimos depois para uma outra sala onde o fogo e a água, como numa sessão de magia, selaram a impressão até ao momento final. Para muitos dos presentes foi o primeiro confronto com a lentidão laboratorial do processo fotográfico analógico. Praticantes diários da fotografia digital, da sua imediatez e facilidade, pudemos ali testemunhar, e compreender melhor, o “antes” e o “durante” dos objetos que apenas conhecemos no seu “depois”, em papel, vidro ou ferro, as imagens que, feitas no passado, estão hoje nos espaços do presente: nas nossas casas, nos arquivos, nas feiras e outros espaços comerciais. Uma fotografia única e irrepetível – o instante estagnado – a contrariar o paradigma da reprodução da imagem que Walter Benjamin já identificou no seu conhecido ensaio A obra de arte na era da sua reproductibilidade técnica, que começou a escrever em 1936 só tendo sido publicado em 1955 (em Portugal foi publicado pela Relógio de Água em 1992, no livro Sobre arte, técnica, linguagem e política).

Interior da exposição A Imagem Paradoxal. Francisco Afonso Chaves (1857-1926), Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha

Seguimos a pé para o Museu de História Natural, ali perto na Rua da Escola Politécnica, onde a Emília Tavares e o Victor dos Reis nos fizeram uma visita guiada pela obra fotográfica de um exímio e polifacético cientista. A Imagem Paradoxal. Francisco Afonso Chaves (1857-1926), tal como já acontecera em Vergílio Correia, percorremos a obra fotográfica de um não-fotógrafo que escolheu a estereoscopia – a imagem dupla que colocada num visor criava a ilusão da tridimensionalidade – como suporte para as suas quase sete mil imagens. Estas fotografias foram feitas no âmbito do seu trabalho de naturalista e viajante ligado a uma coleção museológica de história natural. O espólio esteve mais de 50 anos depositado no Museu Carlos Machado, na capital açoreana de Ponta Delgada, até ser identificado e revelado em toda a sua riqueza através de uma trilogia de exposições e um catálogo organizados pelo Victor e pela Emília. Entre a ciência e a arte, o levantamento fotográfico de Afonso Chaves atravessa várias outras fronteiras, dos Açores em terra e mar, à África que ele conheceu numa expedição científica ou aos principais museus de história natural europeus.

  1. Imagens em conflito: política, memória, império

Quarta-feira foi a vez de pensarmos e vermos a fotografia na intersecção entre política, império e memórias e pós-memórias coloniais, temas centrais ao Grupo de Investigação Impérios, Colonialismo e Sociedades Pós-Coloniais. A Catarina Laranjeiro, antropóloga que combina o cinema, a arte e antropologia e está a concluir uma tese de doutoramento sobre cruzamentos entre cinema e política no contexto da Luta de Libertação na Guiné-Bissau, apresentou um estudo de caso juntamente com a Inês Galvão. A Inês foi, assim, simultaneamente participante da Escola e oradora, além de também fazer parte do GI Impérios. Na investigação que realiza para a sua tese, a fotografia é tanto um dos objetos de estudo como uma metodologia de trabalho de campo. Oferecer aos retratados da Tabanca, na Guiné-Bissau, as fotografias que lhes fez aproximou-a da comunidade. Esta experiência levou-a a uma comparação entre a fotografia etnográfica e de família, assim como a uma abordagem feminista às imagens.

Ambas as investigadoras centraram a sua apresentação nas imagens que hoje circulam na internet de Carmen Pereira, líder das lutas de libertação na Guiné-Bissau, para chegarem à conclusão que – afinal – as fotografias não são dela. Com uma arma num braço e um bebé no outro, mulher-guerrilheira e mulher-mãe, a imagem, icónica, imbuía a dupla contribuição feminina nos movimentos de resistência ao colonialismo. Mesmo que o retrato não correspondesse à pessoa que está descrita na legenda. Miguel Bandeira Jerónimo, o orador seguinte, é investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e tem múltiplas publicações na área de história internacional e transnacional do imperialismo, como o livro The ‘Civilising Mission’ of Portuguese Colonialism, 1870-1930 [editada anteriormente em português pela Imprensa de Ciências Sociais. Jerónimo veio falar de imagens e violência, ou de denúncia de violência, através do caso de Alice Harris e do seu marido, John Harris, defensores de um humanitarismo protestante. A prova fotográfica, no seu duplo sentido de prova material e de prova dos maus tratos perpetrados contra africanos em contexto laboral-colonial.

Afonso Dias Ramos é doutorado pela UCL com uma tese intitulada Imageless in Angola: Living through the aftermath of war. Reinventing the photographic medium in a transnational age, sobre a relação entre violência política e fotografia na arte contemporânea. Nessa manhã, explorou os usos de imagens no início da “guerra colonial”, tal como foi denominada pelos portugueses, que desde 1961 opôs um Portugal colonizador a uma Angola colonizada a lutar pela sua independência. Ramos mostrou como para além da denúncia ou do protesto, a fotografia de atrocidade também foi usada como incentivo a uma maior violência por parte daqueles que – na fotografia – surgiam como vítimas. As atrocidades perpetradas contra seres humanos foram usadas por Portugal de múltiplas formas e perante várias audiências, nacionais, coloniais e internacionais, da plateia nova-iorquina das Nações Unidas às reproduções em livros e folhetos. Aquilo que se pode considerar como o “arquivo visual da guerra colonial”, uma guerra que durou 13 anos, corresponde, segundo o orador, sobretudo a três dias sucessivos em Março de 1961. A ressonância destas primeiras imagens perdurou muito para lá do momento da sua produção e algumas delas foram mesmo reproduzidas noutros contextos com novos significados.

Catarina Simão, arquiteta, investigadora independente, artista e realizadora veio falar-nos do seu filme Djambo. Djambo é o nome do protagonista fotógrafo, testemunha e participante dos movimentos de independência de Moçambique, que no filme nos fala quer do seu presente pós-colonial, quer do seu passado colonial. Foi nesse passado que Djambo acompanhou Samora Machel em diferentes momentos do seu percurso, até mesmo no desastre de avião onde este perdeu a vida e onde o fotógrafo sobreviveu. Simão filma Djambo a regressar aos lugares desse passado histórico de transição e com as fotografias que ele próprio tirou, a olhar para elas e a relembrar o momento, o lugar e as pessoas que a fotografia juntou num mesmo instante. Finalmente ouvimos a Inês Ponte, antropóloga, a falar-nos sobre o seu projeto Mobilising Archives: photography in Southwest Angola desenvolvido no âmbito de um pós-doutoramento no ICS-ULisboa  A nossa colega no Grupo de Investigação Impérios, Colonialismo e Sociedades Pós-coloniais usa a fotografia quer como documento de arquivo visual colonial que lhe interessa analisar – a fotografia com intenção etnográfica produzida no âmbito do Museu de Etnologia, entre as décadas de 1930 e 1990 -, quer como metodologia e prática do seu trabalho de antropóloga. Um dos seus estudos de caso é a coleção fotográfica realizada por António Carreira, nascido em Cabo-Verde, e produzida no contexto das Missões de Prospecção Etnográfica que desenvolveu para o então designado Museu de Etnologia do Ultramar entre 1965 e 1969.

Colecção fotográfica, Arquivo Histórico Militar, Lisboa. Set. 2017, Fotografia de Larissa R. Cunha
Participantes da Escola de Verão na visita ao Arquivo Histórico Militar com o diretor, Coronel Carreira Martins, e o subdiretor, Major Cunha Roberto. Set. 2017, Fotografia gentilmente cedida pelo AHM

Nessa tarde, seguimos para o Arquivo Histórico Militar, em Santa Apolónia, junto ao Museu Militar, mas prestes a ser transferido para um edifício específico, junto ao Panteão Nacional, ali vizinho. No Arquivo fomos recebidos pelo seu subdiretor, Major Cunha Roberto, que depois de uma apresentação sobre as principais coleções desse riquíssimo Arquivo, sobretudo aquelas referentes à história colonial, nos preparou uma seleção de materiais fotográficos. Usando luvas pudemos folhear o Álbum de Angola, com fotografias de Veloso de Castro nas primeiras duas décadas do século XX; fotografias do Arnaldo Garcez, fotógrafo oficial do Corpo Expedicionário Português durante a I Guerra Mundial; ou álbuns de visitas oficiais às colónias ao longo do século XX.

  1. Arquivos temáticos de fotografia: do retrato criminal ao álbum de família

O penúltimo dia do Curso, quinta-feira dia 21 de Setembro, foi dedicado aos Arquivos temáticos de fotografia: do retrato criminal ao álbum de família. Leonor Sá começou por nos falar precisamente dos retratos judiciários em Portugal nas últimas décadas do século XIX, tema da sua tese de doutoramento em Estudos de Cultura, na Universidade Católica Portuguesa. Enquanto conservadora responsável do Museu de Polícia Judiciária em Lisboa, Sá conhece bem a história europeia dos usos da fotografia como forma de classificar, identificar e controlar aqueles indivíduos que, por diferentes motivos, se encontravam à margem das normas sociais, quer por terem cometido pequenos ou grandes crimes, quer por possuírem doenças mentais e físicas passíveis de serem apreendidas pela visualidade fotográfica. A oradora mostrou-nos as muitas carte-de-visite exemplificativas desta forma de controlo social mas também exemplos de mugshots contemporâneos, iconizados por Andy Warhol, onde a fotografia multiplicada e divulgada serve para encontrar o criminoso fugido.

Apresentação de Leonor Sá sobre retratos judiciários na Escola de Verão, ICS-ULisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha

Quer Paulo Ribeiro Baptista quer Filipe Figueiredo exploraram a riqueza da fotografia de teatro através de vários estudos de caso e tipologias, das imagens de cenas teatrais, à iconologia de atrizes e atores, as imagens de desfiles, cortejos, ou procissões de rua ou a arquitetura teatral, tão presente nos espaços urbanos da modernidade. Figueiredo está envolvido no projeto Opsis, uma base iconográfica de teatro em Portugal, enquanto Baptista, curador no Museu do Teatro, tem nas 130,000 imagens da Casa Vasques, preservadas na Torre do Tombo, um dos seus próximos projetos. Paulo Baptista falou-nos ainda num dos seus outros temas de investigação que resultou num livro sobre a casa fotográfica de Emilio Biel. O alemão que tanto fotografou o Portugal das últimas décadas de Oitocentos, entre a paisagem natural e a industrialização, sobretudo através dos caminhos-de-ferro do norte, notabilizou-se também como editor de livros fotográficos e como um dos principais utilizadores da técnica da fototipia.

Cosimo Chiarelli e Ana Gandum, exploraram a ideia de “álbum” de formas diferentes. Chiarelli, historiador da fotografia que também se tem dedicado à fotografia de teatro em Itália e em França, falou sobre os dois álbuns de Sarawack, na ilha de Bornéu na Malásia, com fotografias da década de 1860 que Margaret Brooke ofereceu ao naturalista Italiano Edoardo Beccari e estão hoje no arquivo do Museu de História Natural de Florença. Britânica, tornou-se Rainha de Sarawak (1849-1936) ao casar com o Rajah britânico de Sarawak, Charles Anthony Johnson Brooke, um modelo singular de hegemonia imperial que distinguiu esta região da maioria dos espaços asiáticos sob domínio britânico. Esta viagem dos objetos fotográficos – fotografias coladas em álbuns – de Sarawak para uma cidade italiana exemplifica bem uma característica da fotografia logo desde a sua invenção. Objectos pequenos, portáteis e imbuídos de afectividade e relações pessoais, as fotografias circularam num espaço globalizado, a acompanhar a mobilidade das pessoas que os possuíam ou colecionavam, ou a serem enviados pelas redes de correspondência postal que unia aqueles que se encontravam em lugares distintos.

Chiarelli analisa o álbum nos interstícios de dois paradigmas visuais: por um lado, o do scrapbook oitocentista, prática muito popular e doméstica, em que recortes em papel (de ilustrações a fotografias ou postais) eram colados nas folhas cartonadas de um álbum vazio destinado a esse efeito; por outro lado, o do Atlas Mnémosyne, concebido pelo historiador do da Antiguidade e do Renascimento Aby Warburg entre 1924 e 1929, data da sua morte. Cerca de mil imagens, simbolicamente colocadas lado a lado ou justapostas em dezenas de painéis, levariam a uma melhor compreensão das mudanças históricas tal como das diferenças entre espaços geográficos, norte-sul, este-oeste. “Espaços de pensamento”, o Atlas pioneiro de Warburg pode ajudar a pensar o álbum privado e familiar, onde alguém tem que decidir o que colar e como colar, o que expor, o que deitar fora, o que guardar e como guardar, segundo critérios onde a subjectividade individual se cruza com as tipologias classificatórias disponíveis. Quem faz o álbum pode ou não ser também quem faz as fotografias. Nestas tipologias não-escritas, alguns temas predominam sobre outros – um álbum de uma viagem, um álbum de um casamento ou de um batizado, um álbum de um soldado na guerra ou um álbum de uma infância.

Ana Gandum apresentou o tema da sua tese de doutoramento prático e teórico em Estudos Artísticos na Universidade Nova de Lisboa: a circulação da fotografia vernacular – no sentido de vulgar, comum – entre a comunidade de migrantes portugueses no Brasil no período 1890-1970. Através da sua abordagem pudemos conhecer melhor mais um exemplo das viagens da fotografia entre geografias, afectos e distâncias. Viagens estas que também podem ser pensadas para lá dos espaços domésticos por onde passaram: quando morre a pessoa que possuía as fotografias, ou quando uma mudança de morada ou de país obriga a levar umas coisas e a deixar outras, as fotografias acabam muitas vezes abandonadas, esquecidas ou mesmo deitadas para o lixo. Estes lugares do presente onde se encontram as fotografias do passado devem também ser objeto de reflexão – nos espaços comerciais de feiras de velharias, em livrarias em segunda mão ou no mercado crescente da internet onde colecionadores ou curiosos as compram. “Fotografias encontradas” (“found photographs”) é o nome atribuído as estas imagens descontextualizadas dos lugares e pessoas que as produziram.

Os álbuns de família são um dos objetos da pesquisa de Gandum que, como explicou, começaram por ser estudados pela sociologia e pela antropologia para agora serem também um tema privilegiado pelos estudos de fotografia a partir das mais diversas abordagens. Memórias e emoções também são prismas para pensar estas fotografias atravessadas por camadas de múltiplos discursos. Para lá sua visualidade, vários estudos recentes, como os de Tina M. Campt, têm explorado as qualidades hápticas da fotografia – as suas qualidades tácteis, sensíveis ao toque, sobretudo quando o toque se cruza com a visão. Pegar, tocar numa fotografia enquanto se olha para ela. Sobretudo quando existe a distância ou a morte a separar-nos da pessoa representada. Ana Gandum, juntamente com Inês Abreu e Silva está também envolvida num projeto de criação de um sítio online de fotografia vernacular portuguesa.

Luís Pavão, conservador das coleções de fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa, mostra-nos o laboratório de restauro fotográfico. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha

A manhã acabou com o artista João Paulo Serafim a falar sobre o seu trabalho fotográfico sobre colecções e museus. Com uma exposição no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, com o qual o fotógrafo Afonso Chaves (1857-1926) esteve tão envolvido, Serafim continua a explorar o seu interesse por arquivos, museus e colecções assim como as fronteiras entre o ficcional e o “verdadeiro” ou científico, onde se encontram aqueles objectos que passam o crivo do espaço de classificação ou de exposição. Nessa tarde fomos visitar um Arquivo exemplar até por ter sido pioneiro na conservação, classificação e digitalização dos seus vastos espólios fotográficos – o Arquivo Municipal de Fotografia, situado na Rua da Palma, no Martim Moniz, desde há quase 25 anos. Dividídos em dois grupos para melhor conhecer os espaços e as pessoas que trabalham nos vários departamentos do Arquivos, tivemos a oportunidade de conhecer os lugares onde se restauram as fotografias e de ouvir o seu responsável, Luis Pavão, e a sua equipa. Com José Luís Neto, conhecemos o Laboratório e com Paula Cunca, também participante da Escola, ficámos a conhecer melhor as colecções e as formas de as aceder online, tal como vimos alguns exemplos de fotografias e de catálogos de exposições e projetos de investigação levados a cabo pelo Arquivo. Os projetos educativos, determinantes na formação das crianças e jovens que vão ao Arquivo com a escola, foram-nos apresentados pela sua responsável, Vitória Pinheiro. A fotografia, digital, faz parte do quotidiano das gerações agora em idade escolar. Todos são fotógrafos. Mas muitos só no Arquivo é que tiveram contacto pela primeira vez com a fotografia analógica, que dominou a tecnologia fotográfica durante cerca de 150 anos.

  1. Fotografia e práticas artísticas

Na sexta feira dia 22, a manhã começou da melhor forma – uma performance-conferência da encenadora, atriz e dramaturga, Joana Craveiro. Fundadora e diretora artística do Teatro do Vestido, Craveiro doutorou-se com uma tese-espectáculo que voltou a apresentar recentemente no Teatro S. Luiz, Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas. Sentada na sala em penumbra, apenas uma lâmpada a iluminar uma pilha de documentos e fotografias na mesa à sua frente, Craveiro ia encarnando várias personagens vindas de um passado recente. A memória politizada de um Portugal marcado pelo 25 de Abril, os “antes”, “durantes” e “depois”, onde a fotografia despoleta memórias e pós-memórias. As vozes das mulheres da revolução, as personagens reais e ficcionadas que surgem do trabalho de entrevistas, de pesquisa em arquivo e de investigação histórica feita por Joana Craveiro. Delfim Sardo, na discussão final, notou como os percursos biográficos das pessoas dessa geração e os materiais da fotografia analógica com os quais conviveram, chegavam a um fim simultâneo – se muitas das pessoas que a dramaturga entrevistava estavam a chegar ao fim da vida ou tinham já morrido, também a materialidade da fotografia que tanto marcara a relação com a história pública e privada do século XX desapareceu com a recente revolução digital.

Seguiram-se três artistas – todos eles desafiados a partilhar o lugar da fotografia nas suas práticas artísticas. André Cepeda, entre o Porto e Lisboa, mostrou-nos alguns dos seus projetos fotográficos transformados em livros fotográficos. Pauliana Valente Pimentel, artista visual e fotógrafa freelancer, tanto trabalha para revistas e jornais como para exposições colectivas e individuais. O seu trabalho sobre a comunidade transgénero do Mindelo, capital da ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, foi o resultado de uma estadia prolongada de convívio com um grupo de pessoas que vivem numa mesma zona, marginal e pobre da cidade. Ana Janeiro usa a fotografia na sua pesquisa artística. Auto-representação, performance e identidade estão presentes em vários dos seus trabalhos e também no Álbum Índia Portuguesa 1951-1961 onde a passagem da família por uma Goa colonial lhe chegou às mãos em forma de fotografias e cartas.

Delfim Sardo, curador, professor convidado pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, e responsável pela programação de artes plásticas da Culturgest, em Lisboa, concluiu a manhã com uma reflexão sobre fotografia e artes visuais em Portugal centrada no livro de 2015 Fotografia: modo de usar, que publicou com Emília Tavares e Sérgio Mah. Devemos escolher uma imagem única ou uma série de imagens, tendo em conta que tantas narrativas só fazem sentido em conjunto? Este foi um dos dilemas do projeto-livro que Sardo partilhou com os participantes. Uma das constatações da pesquisa sobre o panorama fotográfico nacional foi a de uma persistência da auto-representação em performances fotográficas: de Aurélia de Sousa, pintora oitocentista que (se) fotografava, a Helena Almeida ou a Jorge Molder. Sardo acabou por sublinhar a importância das exposições para dar a conhecer as obras que têm que ser vistas e discutidas para, poderíamos acrescentar, “existirem”. As reproduções fotográficas de obras de arte – o Museu Imaginário que André Malraux concebeu em 1947 – não são suficientes. Também precisamos de ver as obras na sua materialidade, num espaço real e tridimensional que também é ocupado por nós.

Visita à exposição de fotografia da colecção NovoBancoPhoto, Espaço NovoBanco, Lisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha

Na última visita da semana tivemos a oportunidade de ver a melhor coleção de fotografia artística contemporânea, nacional e internacional, que existe em Portugal, a Coleção de Fotografia Contemporânea Novo Banco, que em breve será exposta em permanência no Convento de São Francisco em Coimbra. Criada pelo antigo BES, e tornada conhecida pela instituição do Prémio BESPhoto, a coleção está centrada na obra de artistas vivos. No Espaço NovoBanco à entrada do edifício na Praça Marquês de Pombal estava exposta uma pequena parte da colecção, que nos foi mostrada pelo conservador Rodrigo Bettencourt da Câmara. A vasta maioria encontra-se guardada nas reservas do mesmo edifício, onde tivemos a oportunidade de ver alguns exemplares, arquivados em estruturas assentes em calhas de ferro que se puxam para os tornar visíveis. O Arq. Arlindo Serrão, Diretor do Departamento de Comunicação e de relações Institucionais do banco, mostrou-nos a obra de autores como Cindy Sherman, Thomas Struth, Candida Hofer, Vito Acconci, Bernd & Hilla Becher, William Eggleston, Robert Frank, Christian Boltanski, Sophie Calle ou Rineke Dijkstra, com os seus retratos de forcados de Vila Franca acabados de sair da Praça de Touros, são alguns dos nomes das mais de 1000 obras de 280 artistas de 38 nacionalidades (o catálogo está online). Entre os artistas nacionais são várias as gerações presentes, de Helena Almeida a Gabriela Albergaria ou Filipa César. André Cepeda, Pauliana Valente Pimentel, João Paulo Serafim e Paulo Catrica, oradores da Escola de Verão, estão igualmente presentes na coleção.

Tão importantes como as oradores e oradores foram os participantes que se inscreveram na Escola de Verão e que a tornaram possível. Como afirmei na abertura da Escola, muitos deles, se não todos, poderiam ter sido as oradoras e oradores desta ou da próxima escola. Alguns estão a fazer doutoramentos ou pós-doutoramentos onde a fotografia é o principal objecto de estudo, outros trabalham em arquivos fotográficos, outros ainda são fotógrafos, outros ainda trabalham em arquivos ou, como no caso da jornalista do Público Lucinda Canelas, têm na fotografia e na sua história um dos seus muitos interesses. Foi Lucinda Canelas que assinou um artigo sobre a exposição que vimos no primeiro dia de curso – Vergilio Correia (1888-1944): um olhar fotográfico.

Senhor José Ramada, na Casa dos Amigos do Minho. Set. 2017. Fotografia de Maria Coutinho

Na noite do último dia juntámo-nos todos num jantar inesquecível numa pequena sala da Casa dos Amigos do Minho. Virada sobre a Rua do Benformoso, num prédio demasiado bonito para resistir à especulação imobiliária que já tomou conta – também – do Intendente. A sala, despojada, onde jantámos tinha apenas três fotografias na parede. A roupa, os óculos e as cores sumidas dos retratos de três homens situavam-nos na década de 1970. A Larissa Ribeiro Cunha, a arquiteta brasileira que pela primeira vez saiu do Brasil para vir a Lisboa participar na Escola de Verão, e a Maria Coutinho foram as fotógrafas não-oficiais da noite. Como na tradição indiana das pessoas se fazerem fotografar com os retratos dos seus familiares já mortos (como Christopher Pinney tão bem explorou no seu livro Camera Indica) – uma forma de unir numa mesma imagem os vivos e os que já morreram – o Senhor José Ramada que nos serviu o jantar, posou junto aos três retratos dos fundadores. Antes já nos tinha contado como a Casa estava em risco de fechar, incapaz de responder à pressão económica que está a tomar conta daquela Lisboa durante tanto tempo marginal (acabou por fechar em dezembro de 2017). O espaço surgira como lugar de convívio para os migrantes internos que vinham do Minho para a capital à procura de melhores oportunidades. Depois disso o Intendente tornou-se muitas coisas e também o lugar de emigrantes vindos de muitos lugares do mundo, da China, ao Bangladesh ou o Paquistão. Hoje grande parte dos compradores dos belos edifícios oitocentistas do bairro são também estrangeiros mas ricos, e sobretudo invisíveis. Não são os que passam e param na Rua do Bemformoso. A noite acabou na Casa Independente – espaço de copos como de arte, de música ao vivo como de livros e palavras – onde pelas paredes se expunham as fotografias resultantes do Workshop Narrativas Fotográficas no Intendente, coordenado pela Pauliana Valente Pimentel, que falara nessa manhã, e frequentado por João Farelo, outro dos participantes da Escola de Verão. O melhor da semana foi termos chegado ao fim com vontade de nos voltarmos a encontrar para pensar, falar e ver fotografia.

Partilhar