O arquivo, o filme e a economia narrativa: fotografias de rodagem de uma etnoficção angolana

“127 fotogramas ou 34 cenas de ‘Nelisita’” nasceu do encontro entre material de arquivo, um filme realizado por Ruy Duarte de Carvalho em 1982 e do projecto de uma exposição. Encarregada pelos herdeiros de inventariar o espólio de Carvalho, ao participar na equipa de curadoria de Uma Delicada Zona de Compromisso (2015), uma exposição dialogante com processos criativos de Carvalho, propus pensarmos como uma série de fotografias de rodagem existentes poderiam invocar o filme. . No âmbito desta exposição haveria melhor suporte que fazê-lo através de imagens produzidas durante o seu processo de criação?

As fotografias, num total de 127, consistiam em conjuntos diversos de imagens semelhantes impressas – repetições com ligeiras diferenças de tom indiciando experiências várias de revelação –, perfazendo 34 cenas da etnoficção Angolana “Nelisita: narrativas Nyaneka”. Para a exposição, alinhei aleatoriamente estas 34 cenas digitalizadas individualmente, procurando dar-lhes alguma “animação”, através de ligeiras alterações no seu posicionamento individual, num pequeno filme de menos de 3 minutos. Procurava perceber capacidade destes conjuntos conduzirem a pequenas narrativas, que poderiam ou não ter a ver com o filme: dependeria em grande parte do conhecimento prévio do espectador; e Nelisita…  era até então um filme de difícil acesso.

Para uma oficina participativa, proposta pela 2ª Edição do FACA, Festa de Antropologia, Cinema e Arte, organizada pelo Núcleo de Antropologia Visual e da Arte (NAVA-CRIA), em fevereiro de 2016, aproveitei a oportunidade para tentar combinar o filme com as fotografias de rodagem que encontrei no espólio. A minha proposta procurava perceber se esses conjuntos de fotografias permitiriam reduzir o filme a uma economia narrativa mínima, ajudando a avançar a história complexa contada neste filme.

Na procura de autonomizar esse exercício de uma apresentação oral, a esse resultado juntei depois um enquadramento através de outro material relacionado com o filme e disponível no arquivo.

Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) foi antropólogo, escritor, cineasta. De origem Portuguesa, naturalizou-se Angolano no final da década de 1970. RDC Virtual é um repositório com filmes que realizou, assinando como Rui Duarte, entre os quais Nelisita: narrativas Nyaneka. Acesso ao Catálogo de filmes aqui.

Nelisita: Narrativas Nyaneka: 16 mm, 1982, p&b, 64’.  Etno-ficção. Realização Rui Duarte. [Falado em Olunyaneka, legendado em Português]

127 Fotogramas ou 34 Cenas de ‘Nelisita’: digital, 2016, p&b, 14’. Experimental. Realização Inês Ponte. [Falado em Olunyaneka, legendado em Inglês e Português]

sinopse: Curta-metragem vídeo feita a partir da combinação de materiais de arquivo, fotografias a preto e branco e cópia DVD do filme originalmente rodado em 16mm, Nelisita, uma longa-metragem de etnoficção realizada por Rui Duarte em 1982. Nelisita combina duas narrativas orais dos Ovamwila, povos agro-pastoris do Sudoeste de Angola. 127 fotogramas… é uma versão curta deste conto mágico-realista, passado num período onde a fome impera, e acompanha a busca e os encontros de um homem para alimentar a sua família. Os espíritos não gostam dos feitos que este homem alcança, prendendo toda a gente na aldeia, e desafiando Nelisita, o filho ainda livre do vizinho desse homem, e que se gerou a si mesmo, a recuperar os aldeões de volta.

As duas histórias ovamwila foram recolhidas durante a década de 1970 por Carlos Estermann, padre etnógrafo que passou cerca de 50 anos no Sudoeste de Angola.

127 frames or 34 scenes from nelisita from ines ponte.

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