{"id":2496,"date":"2019-01-24T22:39:17","date_gmt":"2019-01-24T22:39:17","guid":{"rendered":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/?p=2496"},"modified":"2022-09-22T21:33:01","modified_gmt":"2022-09-22T21:33:01","slug":"imperio-robusta-cafe-cientistas-angola-e-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/imperio-robusta-cafe-cientistas-angola-e-o-mundo\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio Robusta: Caf\u00e9, Cientistas, Angola e o Mundo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2516\" aria-describedby=\"caption-attachment-2516\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2516 size-wcstandard\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-550x343.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-550x343.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-300x187.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-768x479.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-250x156.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-800x499.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-288x180.jpg 288w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-481x300.jpg 481w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2-801x500.jpg 801w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/robusta-na-floresta-2.jpg 894w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2516\" class=\"wp-caption-text\">Arbustos de caf\u00e9 Robusta (Coffea canephora) cultivados no seu habitat natural (Richard Houk, &#8220;Recent Developments in the Portuguese Congo\u201d, Geographical Review 48, 2, 1958, p.208).<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por <strong>Maria do Mar Gago<\/strong><\/p>\n<p>A proposta desta investiga\u00e7\u00e3o foi examinar a hist\u00f3ria do caf\u00e9 de Angola a partir do olhar dos bot\u00e2nicos e agr\u00f3nomos a trabalhar para o estado colonial. O resultado foi <em>Robusta Empire: Coffee, Scientists and the Making of Colonial Angola (1898-1961)<\/em>, uma disserta\u00e7\u00e3o que usa a hist\u00f3ria desta cultura agr\u00edcola para reflectir sobre a natureza do colonialismo portugu\u00eas em \u00c1frica.<\/p>\n<p>A chave para esta reflex\u00e3o \u00e9 a forma como os cientistas abordavam o caf\u00e9 angolano, n\u00e3o apenas como \u201ccaf\u00e9\u201d, mas como caf\u00e9 Robusta. Esta pequena nuance, para alguns historiadores uma mera particularidade t\u00e9cnica, \u00e9 crucial para compreender a hist\u00f3ria do caf\u00e9 neste preciso lugar e momento na hist\u00f3ria. A principal tese desta disserta\u00e7\u00e3o \u00e9 que somente considerando as dimens\u00f5es <em>ambiental<\/em> e <em>tecnol\u00f3gica<\/em> da hist\u00f3ria do caf\u00e9 angolano podemos compreender a <em>robustez <\/em>do projecto imperial que visava transformar esta col\u00f3nia num dos principais produtores mundiais de caf\u00e9. Hist\u00f3ria da ci\u00eancia, hist\u00f3ria da tecnologia, hist\u00f3ria ambiental e hist\u00f3ria colonial cruzam-se para compreender a constru\u00e7\u00e3o deste <em>Imp\u00e9rio Robusta<\/em>, numa narrativa que questiona vers\u00f5es simplistas e de-cima-para-baixo da hist\u00f3ria agr\u00edcola colonial e explora aspectos menos \u00f3bvios da rela\u00e7\u00e3o colonial. Apesar de centrada em Angola, a investiga\u00e7\u00e3o estabelece importantes conex\u00f5es entre a hist\u00f3ria do imperialismo portugu\u00eas (e europeu) tardio e a dos Estados Unidos enquanto poder hegem\u00f3nico do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 tem sido apresentada na historiografia de Angola como um exemplo paradigm\u00e1tico de uma forma retr\u00f3grada de dom\u00ednio colonial, e as pr\u00e1ticas de coer\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia associadas aos regimes de trabalho for\u00e7ado apontadas como a raz\u00e3o para o seu sucesso enquanto mercadoria imperial. N\u00e3o tendo como objectivo negar esta hist\u00f3ria de viol\u00eancia, esta investiga\u00e7\u00e3o segue outro caminho. Na primeira parte da disserta\u00e7\u00e3o, e pelas m\u00e3os dos bot\u00e2nicos e agr\u00f3nomos a trabalhar em torno dos Servi\u00e7os de Agricultura de Angola (entre 1898 e 1939), somos conduzidos \u00e0s florestas onde o caf\u00e9 era plantado e levados a reconhecer que a planta explorada nesta col\u00f3nia (o caf\u00e9 Robusta) era uma esp\u00e9cie ind\u00edgena dessas mesmas florestas \u2013 as \u201cflorestas do nevoeiro,\u201d segundo a nomenclatura da \u00e9poca, devido \u00e0 permanente neblina que cobria estas florestas durante a \u00e9poca seca. Atrav\u00e9s dos relat\u00f3rios produzidos por estes cientistas, compreendemos o sistema agro-florestal que estava por detr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 em Angola e como este sistema foi inventado para tirar proveito das condi\u00e7\u00f5es ambientais da planta no seu estado selvagem. Finalmente, apercebemo-nos que n\u00e3o apenas os europeus mas tamb\u00e9m os africanos cultivavam esta planta de acordo com uma trama hist\u00f3rica remota e intricada; n\u00e3o s\u00f3 os sistemas de cultivo europeu e africano divergiam pouco entre si (a n\u00e3o ser, evidentemente, em termos de escala), como um quarto da produ\u00e7\u00e3o da col\u00f3nia provinha de produtores africanos \u2013 aspecto que tem sido negligenciado pelos historiadores do Imp\u00e9rio Portugu\u00eas. Quer isto dizer que n\u00e3o s\u00f3 as grandes planta\u00e7\u00f5es europeias como as lavras africanas alimentavam a economia angolana e o Imp\u00e9rio Portugu\u00eas, e que era no meio da floresta e das montanhas, em locais onde antes a planta crescia espontaneamente, que se localizavam ambos os sistemas de produ\u00e7\u00e3o. Nesta disserta\u00e7\u00e3o defende-se que esta dimens\u00e3o<em> ambiental<\/em> (e <em>tecnol\u00f3gica<\/em>) do Robusta \u00e9 essencial para compreender a for\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o-coerciva, aspecto que parece estar ausente da hist\u00f3ria de outras culturas de rendimento em Angola, como o algod\u00e3o ou o a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Por outro lado, acompanhar a constru\u00e7\u00e3o do <em>Imp\u00e9rio Robusta<\/em> pela m\u00e3o dos agr\u00f3nomos permite-nos tamb\u00e9m compreender como \u00e9 que o Imp\u00e9rio Portugu\u00eas foi capaz de responder ao aumento de procura deste tipo de caf\u00e9 no mercado global ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, procura essa associada a uma tend\u00eancia de consumo, a do caf\u00e9 instant\u00e2neo (do tipo Nescaf\u00e9). Na segunda parte da disserta\u00e7\u00e3o chama-se a aten\u00e7\u00e3o para a estrat\u00e9gia imperial portuguesa que tinha como objectivo transformar o Robusta angolano numa \u201cverdadeira mercadoria\u201d, isto \u00e9, num bem comercializado cuja identidade podia ser independente do vendedor \u2013 aspecto igualmente ignorado por uma historiografia demasiado focada na quest\u00e3o do trabalho for\u00e7ado ou nos mercados. Ao seguirmos os cientistas (entre 1936 e 1961) compreendemos como esta estrat\u00e9gia imperial se materializou em pol\u00edticas que visavam estandardizar o caf\u00e9 e que tiveram implica\u00e7\u00f5es concretas como a constru\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas de beneficiamento, a implementa\u00e7\u00e3o de um sistema de classifica\u00e7\u00e3o ou a cria\u00e7\u00e3o de um standard angolano de caf\u00e9. Tais pr\u00e1ticas de estandardiza\u00e7\u00e3o foram desenhadas, implementadas e monitorizadas por agr\u00f3nomos que eram funcion\u00e1rios da Junta de Exporta\u00e7\u00e3o do Caf\u00e9, uma estrutura estatal de interven\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica criada pelo Imp\u00e9rio Portugu\u00eas em 1940. Esta dimens\u00e3o<em> tecnol\u00f3gica <\/em>(e<em> tecnopol\u00edtica<\/em>) da hist\u00f3ria do Robusta angolano \u00e9 discutida na segunda parte da disserta\u00e7\u00e3o, na qual se procura contextualizar esta junta imperial (<em>marketing board, <\/em>na literatura anglo-sax\u00f3nica) e discutir o papel do Brasil e dos Estados Unidos no processo de estandardiza\u00e7\u00e3o. Defende-se, por exemplo, que este processo foi profundamente negociado por agr\u00f3nomos portugueses e associa\u00e7\u00f5es de investidores ligadas \u00e0 ind\u00fastria norte-americana da torrefac\u00e7\u00e3o no quadro de uma \u201chegemonia coproduzida.\u201d<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o ci\u00eancia-imp\u00e9rio este trabalho aponta tamb\u00e9m para uma revisita\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica. Uma primeira conclus\u00e3o sublinha a import\u00e2ncia de estudar as pr\u00e1cticas de reconhecimento territorial, e em particular as de reconhecimento bot\u00e2nico e agr\u00edcola, defendendo-se que para discutir a fundo a rela\u00e7\u00e3o ci\u00eancia-imp\u00e9rio, e sobretudo no contexto colonial africano, precisamos de nos afastar de projectos concebidos de-cima-para-baixo, e de colocar a nossa aten\u00e7\u00e3o naqueles que nascem no terreno e que resultam de rela\u00e7\u00f5es de poder mais difusas e subtis \u2013 por outras palavras, naqueles projectos que s\u00e3o pol\u00edticos antes de serem uma ideia pol\u00edtica. A segunda conclus\u00e3o remete para a rela\u00e7\u00e3o entre ambientalismo e colonialismo, tema amplamente discutido na historiografia internacional e ainda pouco explorado na historiografia do Imp\u00e9rio Portugu\u00eas, mostrando-se como certos princ\u00edpios ambientalistas permitiram ao imp\u00e9rio fazer uma gest\u00e3o adequada dos seus recursos e assim garantir a longevidade do seu dom\u00ednio. Finalmente, uma terceira conclus\u00e3o aponta para a necessidade de uma hist\u00f3ria da ci\u00eancia que estude com igual afinco as pr\u00e1ticas cient\u00edficas e a economia pol\u00edtica dos estados, exerc\u00edcio particularmente conseguido no estudo sobre a Junta de Exporta\u00e7\u00e3o do Caf\u00e9 e sobre o contexto bifronte em que operavam os cientistas que para ela trabalhavam: por um lado, ajudando a consolidar o <em>Imp\u00e9rio Robusta<\/em>, que apesar de incluir um grande n\u00famero de africanos favorecia acima de tudo os grandes produtores e capitalistas angolanos que dependiam inteiramente das pr\u00e1ticas de trabalho for\u00e7ado; e por outro, imaginando formas alternativas de produ\u00e7\u00e3o baseadas em pequenas unidades localizadas no Planalto Angolano, alimentadas por \u201cm\u00e3o de obra branca\u201d e por um outro tipo de caf\u00e9, o Ar\u00e1bica \u2013 o sonho de substituir o <em>Imp\u00e9rio Robusta<\/em> por um <em>Imp\u00e9rio Ar\u00e1bica<\/em> e que nunca se concretizaria.<\/p>\n<p>Resumo da disserta\u00e7\u00e3o de doutoramento de <strong>Maria do Mar Gago<\/strong>, historiadora da ci\u00eancia e da tecnologia interessada na hist\u00f3ria global das culturas agr\u00edcolas. Investigadora associada do ICS-ULisboa, tem trabalhado na intersec\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da ci\u00eancia e da tecnologia, hist\u00f3ria ambiental, hist\u00f3ria colonial e hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es internacionais. \u00c9 licenciada em Biologia, mestre em Hist\u00f3ria e Filosofia das Ci\u00eancias e doutora em Hist\u00f3ria no \u00e2mbito do programa doutoral Hist\u00f3ria: Mudan\u00e7as e Continuidades num Mundo Global (PIUDHist). A disserta\u00e7\u00e3o, intitulada <em>Robusta Empire: Coffee, Scientists and the Making of Colonial Angola (1898-1961),<\/em> foi orientada por Tiago Saraiva (Drexel University, US) e Staffan Mueller Wille (University of Exeter, UK).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do caf\u00e9 de Angola a partir do olhar dos bot\u00e2nicos e agr\u00f3nomos a trabalhar para o estado colonial, numa investiga\u00e7\u00e3o que usa a hist\u00f3ria desta cultura agr\u00edcola para reflectir sobre a natureza do colonialismo portugu\u00eas em \u00c1frica, entre 1898 e 1961. 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