{"id":3990,"date":"2019-09-17T19:57:51","date_gmt":"2019-09-17T19:57:51","guid":{"rendered":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/?p=3990"},"modified":"2022-12-22T15:44:55","modified_gmt":"2022-12-22T15:44:55","slug":"filipa-vicente-exposicoes-seres-humanos-europa-seculo-xix-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/filipa-vicente-exposicoes-seres-humanos-europa-seculo-xix-xx\/","title":{"rendered":"Exposi\u00e7\u00f5es de seres humanos na Europa dos s\u00e9culos XIX e XX"},"content":{"rendered":"<p><strong>Exposi\u00e7\u00f5es de seres humanos na Europa dos s\u00e9culos XIX e XX<\/strong><\/p>\n<p>Filipa Lowndes Vicente, ICS-ULisboa.<\/p>\n<p>Em 1810, Saartjie Baartman, uma mulher origin\u00e1ria da \u00c1frica do Sul, foi exibida em Londres, para regozijo tanto de um p\u00fablico popular \u00e1vido de novos espect\u00e1culos como de uma comunidade cient\u00edfica interessada na anatomia da diferen\u00e7a humana. Saartjie Baartman, a mulher \u201cobjecto de exposi\u00e7\u00e3o\u201d, perdeu o direito \u00e0 identidade do seu nome pr\u00f3prio, passando a ser conhecida como &#8220;a V\u00e9nus Hottentote&#8221;. Tratava-se de uma das primeiras &#8220;ind\u00edgenas&#8221;, na express\u00e3o da \u00e9poca, a dar maior visibilidade a um fen\u00f3meno que marcou a hist\u00f3ria da Europa e dos Estados Unidos durante o s\u00e9culo XIX e primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, e que foi denominado pela bibliografia cr\u00edtica das \u00faltimas d\u00e9cadas de \u201cjardins zool\u00f3gicos humanos\u201d (<em>zoos humains<\/em>, em franc\u00eas, <em>human zoos<\/em>, em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Podemos perguntarmo-nos, no entanto, se faz sentido usar uma express\u00e3o que perpetua ela pr\u00f3pria a viol\u00eancia intr\u00ednseca ao acto de expor seres humanos perante o olhar de outros seres humanos, em circunst\u00e2ncias de grande desigualdade. Desde o s\u00e9culo XV que mulheres e homens &#8211; e tamb\u00e9m animais ex\u00f3ticos &#8211; provenientes de lugares fora da Europa eram &#8220;exibidos&#8221; nas cortes ib\u00e9ricas, mas faziam-no perante uma audi\u00eancia reduzida e circunscrita, bem distinta das multid\u00f5es observadoras, em espa\u00e7os de lazer e entretenimento, t\u00edpicos do s\u00e9culo XIX. O s\u00e9culo XIX consolidou esta altera\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de exibi\u00e7\u00e3o de seres humanos de espa\u00e7os privados para espa\u00e7os p\u00fablicos. Tamb\u00e9m assistiu ao desenvolvimento de uma nova cultura visual, bidimensional, que, atrav\u00e9s das novas t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o de imagens, multiplicava a difus\u00e3o do evento &#8211; em postais fotogr\u00e1ficos ou litografias de peri\u00f3dicos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3998\" aria-describedby=\"caption-attachment-3998\" style=\"width: 389px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3998\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3.jpg\" alt=\"\" width=\"389\" height=\"503\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3.jpg 1485w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-232x300.jpg 232w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-768x993.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-792x1024.jpg 792w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-250x323.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-550x711.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-800x1034.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-139x180.jpg 139w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo3-387x500.jpg 387w\" sizes=\"auto, (max-width: 389px) 100vw, 389px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3998\" class=\"wp-caption-text\">Postais fotogr\u00e1ficos.\u00a0Cole\u00e7\u00e3o da autora. Em cima: Postal com fotografia realizada no <em>Jardin des Plantes<\/em> de Paris. Impresso em Paris, Fran\u00e7a, s.d.\u00a0 Em baixo: Postal oficial da Exposi\u00e7\u00e3o de Mil\u00e3o. Impresso em Mil\u00e3o, It\u00e1lia, 1906. N\u00e3o circulados.<\/figcaption><\/figure>\n<p>De Londres para Paris, a &#8220;V\u00e9nus&#8221; percorreu o circuito dos espa\u00e7os de espect\u00e1culos de massas da \u00e9poca, ao mesmo tempo que foi reproduzida em gravuras caricaturais. Depois da sua morte, em 1815, o corpo de Saartjie Baartman continuou sujeito n\u00e3o s\u00f3 ao escrut\u00ednio do olhar europeu, como aos instrumentos cient\u00edficos do conhecido naturalista Cuvier, que a dissecou no seu gabinete anat\u00f3mico em Paris. Fragmentado quer em moldes &#8220;cient\u00edficos&#8221;, quer pela aut\u00f3psia a que foi sujeito, s\u00f3 em 2002 o corpo musealizado de Saartjie regressou \u00e0 \u00c1frica do Sul. Durante esse processo, tornou-se um corpo politizado, s\u00edmbolo de pr\u00e1ticas perpetradas por poderes coloniais, e reivindicado pelos diversos grupos que lhe quiseram dar um enterro religioso e erigir-lhe um monumento \u2013 espa\u00e7os de mem\u00f3ria muito distintos do museu europeu onde o seu corpo esteve guardado durante quase dois s\u00e9culos. Objectificados enquanto parte integrante de cole\u00e7\u00f5es, museus ou centros cient\u00edficos europeus, os corpos de sujeitos colonizados s\u00e3o uma \u00ednfima parte da vast\u00edssima quantidade de &#8220;esp\u00f3lios&#8221; constitu\u00eddos no passado colonial. Num presente p\u00f3s-colonial em que os lugares e a posse das &#8220;coisas&#8221; s\u00e3o alvo de escrut\u00ednio cr\u00edtico e contesta\u00e7\u00e3o crescente, estes &#8220;corpos&#8221; tornaram-se especialmente simb\u00f3licos da viol\u00eancia indissoci\u00e1vel a tantas apropria\u00e7\u00f5es coloniais.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1840, do outro lado do Atl\u00e2ntico, mais precisamente no centro de Manhattan, em Nova Iorque, Phineas Barnum come\u00e7ou a organizar espect\u00e1culos de pessoas que se denominavam <em>freaks<\/em>. Esta exibi\u00e7\u00e3o de seres humanos considerados monstruosos tanto podia incluir pessoas condenadas por crimes, pessoas com limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou mentais, como aquelas provenientes do mundo n\u00e3o-ocidental. Ou seja, todos aqueles seres humanos que, de alguma forma, transgrediam as conven\u00e7\u00f5es da &#8220;normalidade&#8221; socialmente estabelecida. Ao car\u00e1cter circense dos concorrid\u00edssimos eventos, o empres\u00e1rio acrescentou uma faceta cient\u00edfica, sob a forma de confer\u00eancias e textos escritos. Se este tipo de espect\u00e1culo itinerante, de feira ou de taberna, j\u00e1 existia desde o s\u00e9culo XVIII, foi com Barnum que se profissionalizou, alcan\u00e7ando imensa popularidade. Os paralelos entre este fen\u00f3meno e o da exposi\u00e7\u00e3o de &#8220;nativos&#8221; j\u00e1 foi feito numa grande exposi\u00e7\u00e3o organizada pelo Mus\u00e9e du Quay Branly em 2011: <em>Human Zoos. <\/em><em>The Invention of the Savage<\/em>, com cat\u00e1logo editado por Pascal Blanchard, Gilles Boetsch e Nanette Jacomijn Snoep (Paris: Mus\u00e9e du Quai Branly e Actes Sud, 2011). A exposi\u00e7\u00e3o deu continuidade a um projeto de investiga\u00e7\u00e3o que come\u00e7ara mais de 10 anos antes e que j\u00e1 envolvera alguns dos mesmos investigadores. Desse projeto resultou um livro com a participa\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos autores e com o objectivo de analisar o fen\u00f3meno em diferentes contextos geogr\u00e1ficos ocidentais (Portugal n\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo): Nicolas Bancel, Pascal Blanchard, Gilles Boetsch, \u00c9ric Deroo, Sandrine Lemaire (dir.), <em>Zoos humains: de la V\u00e9nus Hottentote aux <\/em>Reality Shows (Paris: \u00c9ditions La D\u00e9couverte, 2002).<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rias individuais<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_4000\" aria-describedby=\"caption-attachment-4000\" style=\"width: 309px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4000\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5.jpg\" alt=\"\" width=\"309\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5.jpg 1308w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-204x300.jpg 204w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-768x1127.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-698x1024.jpg 698w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-250x367.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-550x807.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-800x1174.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-123x180.jpg 123w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo5-341x500.jpg 341w\" sizes=\"auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4000\" class=\"wp-caption-text\">Postal fotogr\u00e1fico referente ao espect\u00e1culo &#8220;malabar&#8221; no<em> Jardin Zoologique d&#8217;Acclimatation <\/em>de Paris em 1902. Cole\u00e7\u00e3o da autora.\u00a0N\u00e3o circulado.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O que \u00e9 que acontecia a estas pessoas-\u201cobjectos de exposi\u00e7\u00e3o\u201d quando deixavam de o ser? Se algumas morriam no exerc\u00edcio, outras passavam a viver situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria, ou regressavam aos seus lugares de origem, inexoravelmente marcadas pela sua passagem pela \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d. Um caso conhecido h\u00e1 poucos anos \u00e9 o dos bisav\u00f3s do futebolista franc\u00eas Christian Karembeu (n. 1970, Nova Caled\u00f3nia). Ambos foram para Paris em 1931, para serem exibidos ao lado de palhotas montadas na Exposi\u00e7\u00e3o Colonial Internacional que nesse ano teve lugar na cidade. A centena de habitantes proveniente da Nova Caled\u00f3nia constituiu uma das principais atrac\u00e7\u00f5es. Mais tarde, e quando grande parte dos crocodilos que os acompanhavam na encena\u00e7\u00e3o sucumbiram no seu novo <em>habitat<\/em>, o Jardim Zool\u00f3gico de Hamburgo ofereceu-se para repor os crocodilos em falta, a troco da vinda de 60 indiv\u00edduos da Nova Caled\u00f3nia, como nova atrac\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do jardim zool\u00f3gico.<\/p>\n<p>O conhecido futebolista narra a humilha\u00e7\u00e3o sentida pelos seus antepassados regressados a casa. Exposta e fotografada, a comunidade teve dificuldade em assimilar o trauma da sua passagem for\u00e7ada pela Europa. De<span style=\"font-size: 1rem;\"> qualquer forma, as vozes que nos chegaram\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 1rem;\">dos expostos s\u00e3o raras e pontuais \u2013 a sua fun\u00e7\u00e3o era serem vistos (ao vivo ou em fotografias), n\u00e3o ouvidos. As barreiras que os separavam dos seus observadores eram dificilmente ultrapass\u00e1veis, mesmo depois da exposi\u00e7\u00e3o. Por exemplo, quando v\u00e1rias das 260 pessoas origin\u00e1rias de um Congo rec\u00e9m-colonizado por Leopoldo II morreram no museu-jardim colonial de Tervuren (Leuven, B\u00e9lgica) onde estavam expostas, os habitantes da aldeia vizinha n\u00e3o aceitaram que os seus corpos fossem enterrados no cemit\u00e9rio local. Debaixo de terra n\u00e3o havia grades de separa\u00e7\u00e3o (Jean-Pierre Jacquemin, &#8220;Les Congolais dans la Belgique &#8220;imp\u00e9riale&#8221;&#8221; in <\/span><em style=\"font-size: 1rem;\">Zoos humains<\/em><span style=\"font-size: 1rem;\">, pp. 254-55).<\/span><\/p>\n<p>Quando o nativo morria em palco, como tantas vezes aconteceu devido \u00e0 brutalidade das mudan\u00e7as climat\u00e9ricas, das doen\u00e7as europeias e das miser\u00e1veis instala\u00e7\u00f5es que frequentemente lhe eram destinadas, era a vez de o m\u00e9dico assumir o seu papel de cientista para vir observ\u00e1-lo mais de perto. Subjacente a este olhar da ci\u00eancia estavam as hierarquias raciais estabelecidas por nomes como Darwin (1809-82). Os zoos humanos constitu\u00edam a prova que faltava para reconfirmar teorias evolucionistas que identificavam uns como mais humanos do que outros. Para muitos dos espectadores de Oitocentos ou de come\u00e7os de Novecentos, os exibidos n\u00e3o eram considerados humanos e n\u00e3o mereciam, portanto, a aten\u00e7\u00e3o de um certo discurso defensor dos direitos humanos que come\u00e7ava a proliferar nesta altura e que j\u00e1 tinha uma longa hist\u00f3ria quando relacionado com ideias abolicionistas. Protestos contra os &#8220;zoos humanos&#8221; tamb\u00e9m se fizeram sentir, mas foram surpreendentemente pontuais at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><strong>As exposi\u00e7\u00f5es de seres humanos e o colonialismo europeu <\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3997\" aria-describedby=\"caption-attachment-3997\" style=\"width: 398px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3997\" style=\"font-weight: bold; font-size: 1rem; -webkit-user-drag: none; display: inline-block; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-bottom: -1ex;\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2.jpg\" alt=\"\" width=\"398\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2.jpg 1477w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-231x300.jpg 231w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-768x998.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-788x1024.jpg 788w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-250x325.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-550x715.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-800x1040.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-138x180.jpg 138w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo2-385x500.jpg 385w\" sizes=\"auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3997\" class=\"wp-caption-text\">Postais fotogr\u00e1ficos. Circulados (enviados pelo correio).\u00a0Cole\u00e7\u00e3o da autora. Em cima: Postal fotogr\u00e1fico com imagem de <em>Gallas<\/em>, pessoas oriundas da actual Eti\u00f3pia expostas no<em>\u00a0Jardin Zoologique d&#8217;Acclimatation<\/em>\u00a0de Paris, em 1908. Em baixo:\u00a0Postal fotogr\u00e1fico identificando um &#8220;Passeio de Mulheres&#8221;, no \u00e2mbito da exposi\u00e7\u00e3o &#8220;\u00c1frica Misteriosa&#8221; no<em>\u00a0Jardin d&#8217;Acclimatation\u00a0<\/em>em 1910, Paris.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">Em 1877, o jardim zool\u00f3gico e bot\u00e2nico tropical de Paris (em franc\u00eas usava-se a palavra <em>acclimatation<\/em>, para nomear os jardins onde se plantavam esp\u00e9cimes provenientes de outras regi\u00f5es do mundo) anunciava a sua nova atrac\u00e7\u00e3o \u2013 um grupo de animais ex\u00f3ticos acompanhado por \u201cindiv\u00edduos n\u00e3o menos singulares\u201d. Esta exposi\u00e7\u00e3o antropo-zool\u00f3gica, como foi apelidada pelo seu organizador, Carl Hagenbeck (1844-1913), atraiu milhares de pessoas e resolveu de vez os problemas financeiros daquele zoo, que passou a ser um dos principais locais europeus de exposi\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas. At\u00e9 \u00e0 Primeira Guerra Mundial, passaram por l\u00e1 in\u00fameros grupos de pessoas provenientes das geografias mais remotas. Os animais que tinham dado nome a este espa\u00e7o p\u00fablico oitocentista passaram a ser um simples adere\u00e7o das encena\u00e7\u00f5es mais atraentes que eram proporcionadas pelos \u201cmalabares\u201d, \u201cabor\u00edgenes\u201d, \u201camazonas\u201d ou simplesmente \u201cselvagens\u201d, que durante meses faziam do <em>Bois de Bologne<\/em> parisiense a sua morada.<\/p>\n<p>Para tornar mais real ao visitante esta viagem metaf\u00f3rica mulheres, homens e crian\u00e7as, habitavam um espa\u00e7o artificial feito de palhotas e lagos, plantas ex\u00f3ticas e artesanato, onde deviam levar a cabo as suas tarefas di\u00e1rias sempre sob o olhar do p\u00fablico. Como a monotonia do quotidiano nem sempre foi considerada suficientemente espectacular, organizavam-se eventos especiais: desde casamentos entre nativos, at\u00e9 aos mais comuns, c\u00e2nticos, dan\u00e7as (sempre ao ritmo intr\u00e9pido de tambores) ou desfiles. A admir\u00e1vel destreza f\u00edsica dos homens provenientes da regi\u00e3o indiana do Malabar, que surpreendiam o p\u00fablico com os seus \u201cmalabarismos\u201d (precisamente, uma palavra que ganhou uso corrente), foi uma das atrac\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Alheios ao elemento espiritual e religioso de muitos destes desafios aos limites do corpo humano, os observadores concentravam-se nas caracter\u00edsticas circenses da encena\u00e7\u00e3o. Uma grade de ferro ou de arame, tal como se pode observar em v\u00e1rios postais fotogr\u00e1ficos, servia de barreira entre dois mundos bem definidos \u2013 o dos observadores e o dos observados, o dos Europeus e os dos n\u00e3o-europeus, dos &#8220;civilizados&#8221; e dos &#8220;primitivos&#8221;, o da normalidade e o da diferen\u00e7a, o dos colonizadores e o dos colonizados, o daqueles que estavam vestidos e o daqueles que se exibiam quase nus.<\/p>\n<p>Entre as duas guerras d\u00e1-se uma clara mudan\u00e7a nas formas de exposi\u00e7\u00e3o de nativos em espa\u00e7os p\u00fablicos. De facto, na Exposi\u00e7\u00e3o Colonial de Paris de 1931, principal modelo da Exposi\u00e7\u00e3o Colonial do Porto de 1934 e de muitas outras que, por esses anos, tiveram lugar noutras cidades da Europa, multiplicaram-se os modos de expor pessoas, por vezes tamb\u00e9m no sentido de n\u00e3o \u201cnativizar\u201d os nativos, mas pelo contr\u00e1rio de torn\u00e1-los mais pr\u00f3ximos do padr\u00e3o do colonizador.<\/p>\n<p><strong>Viajantes sem narrativas de viagem<\/strong><\/p>\n<p>A enorme diversidade de casos espec\u00edficos coloca problemas gerais e \u00e9 atravessada por alguns temas recorrentes. Em primeiro lugar, a viagem: uma das met\u00e1foras mais usadas para descrever a experi\u00eancia de observar pessoas em exposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 a da possibilidade de viajar pelo mundo perto de casa. Por outro lado, os seres humanos expostos s\u00e3o sempre viajantes, embora mais pr\u00f3ximos dos emigrantes, dos exilados ou dos contempor\u00e2neos <em>sans papier <\/em>ou refugiados, do que dos turistas europeus do s\u00e9culo XIX ou dos viajantes provenientes das elites indianas ou africanas que tamb\u00e9m circularam pela Europa no mesmo per\u00edodo. S\u00e3o viajantes que n\u00e3o escrevem di\u00e1rios e que poucas marcas deixam da sua passagem. E sobretudo que t\u00eam pouco ou nenhum controlo sobre a sua viagem ou sequer sobre o facto de terem partido. Escrever a sua hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque a sua perspectiva, experi\u00eancia e subjectividade individuais raramente ficaram registadas em fontes escritas na primeira pessoa. Implica sempre ir \u00e0 procura das fontes produzidas por quem os representou &#8211; quem escreveu sobre eles ou os fotografou. No entanto, e como t\u00eam notado recentemente te\u00f3ricos da fotografia como Elizabeth Edwards, Christopher Pinney ou Ariella Azoulay, o evento fotogr\u00e1fico pode tamb\u00e9m ser um encontro e uma negocia\u00e7\u00e3o, onde o &#8220;representado&#8221; n\u00e3o \u00e9 um mero &#8220;retratado&#8221; . Na fotografia, muitos destes viajantes encontram a subjetividade poss\u00edvel.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3999\" aria-describedby=\"caption-attachment-3999\" style=\"width: 462px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3999\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4.jpg\" alt=\"\" width=\"462\" height=\"358\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4.jpg 1920w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-300x232.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-768x595.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-1024x793.jpg 1024w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-250x194.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-550x426.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-800x620.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-232x180.jpg 232w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-387x300.jpg 387w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo4-646x500.jpg 646w\" sizes=\"auto, (max-width: 462px) 100vw, 462px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3999\" class=\"wp-caption-text\">Postais fotogr\u00e1ficos impressos com a mesma imagem e legendas diferentes. \u00a0Cole\u00e7\u00e3o da autora. \u00c0 esquerda: A legenda indica o nome do organizador de um espet\u00e1culo itinerante com um grupo de indianos. N\u00e3o circulado.\u00a0 \u00c0 direita:<em>\u00a0Caravanne Indienne\u00a0<\/em>no <em>Jardin d&#8217;Acclimatation<\/em>\u00a0de Paris em 1906. Circulado em 1906.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Torna-se pertinente colocar esta visibilidade expositiva ao lado de outras formas de tornar vis\u00edveis, na Europa colonizadora, os seres humanos n\u00e3o-europeus. O que a segunda metade do s\u00e9culo XIX veio trazer foi a suposta proximidade desta diferen\u00e7a atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de recursos em formato visual bidimensional. As viagens visuais tornam-se acess\u00edveis a um n\u00famero muito maior de pessoas e s\u00e3o proporcionadas atrav\u00e9s de in\u00fameros formatos: da hiperrealidade dos corpos presentes em tr\u00eas dimens\u00f5es em exposi\u00e7\u00f5es at\u00e9 \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de uma cultura visual bidimensional, onde a fotografia, a litografia e, j\u00e1 depois no fim do s\u00e9culo, o postal ilustrado, transportam &#8220;o africano&#8221;, &#8220;o indiano&#8221; ou, simplesmente, &#8220;o ind\u00edgena&#8221;, para o interior das casas ocidentais, o espa\u00e7o privado e dom\u00e9stico, ou para o espa\u00e7o p\u00fablico urbano. A escrita acompanha esta viagem imagin\u00e1ria com a populariza\u00e7\u00e3o de relatos de aventuras na selva e her\u00f3is capturados por tribos canibais, sobretudo na prof\u00edqua produ\u00e7\u00e3o editorial infantil e juvenil, em v\u00e1rias l\u00ednguas.<\/p>\n<p>A estreita liga\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e cultura popular \u00e9 outra das ideias centrais para se compreender os &#8220;zoos humanos&#8221;. As fronteiras entre uma e outra cruzam-se constantemente, tornando dif\u00edcil uma divis\u00e3o entre a exibi\u00e7\u00e3o colonial do ind\u00edgena por raz\u00f5es de conhecimento cient\u00edfico, e a sua mera explora\u00e7\u00e3o comercial num contexto de entretenimento. Pessoas de uma mesma &#8220;tribo&#8221; podiam passar uns meses num jardim zool\u00f3gico, para depois ocupar o seu lugar no pavilh\u00e3o nacional de uma exposi\u00e7\u00e3o universal,ou seguir para os teatros de prov\u00edncia repletos de um p\u00fablico \u00e1vido de vis\u00f5es ex\u00f3ticas. De igual modo, uma pessoa em exposi\u00e7\u00e3o ficava sujeita aos olhares mais diversos \u2013 da fam\u00edlia popular a viver o seu Domingo de lazer, ao antrop\u00f3logo que assim superava as dificuldades de viagens in\u00f3spitas que uma observa\u00e7\u00e3o directa exigiria. O &#8220;nativo&#8221; no centro de Amesterd\u00e3o ou de Paris tamb\u00e9m foi medido, fotografado e classificado pelo discurso nascente da antropologia. Por vezes, o antrop\u00f3logo tamb\u00e9m colaborava com o empres\u00e1rio que transportava os &#8220;ind\u00edgenas&#8221; do seu local de origem gerindo as suas <em>tourn\u00e9es<\/em> europeias ou americanas, outorgando-lhe um certificado de autenticidade. Com o carimbo legitimador do especialista, os ind\u00edgenas \u201ccertificados\u201d distinguiam-se dos seus falsos cong\u00e9neres que tamb\u00e9m estavam presentes em diversos espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o, em encena\u00e7\u00f5es teatralizadas.<\/p>\n<p>A grande maioria dos casos de exposi\u00e7\u00e3o de seres humanos \u00e9 indissoci\u00e1vel\u00a0\u00a0 de rela\u00e7\u00f5es coloniais, com tudo o que estas significam em termos de racismo, desigualdade e viol\u00eancia, mas alguns casos subvertem a norma. Tamb\u00e9m existem ambiguidades nestas rela\u00e7\u00f5es que nem sempre se podem deter na simplicidade do bin\u00f3mio explorador\/explorado: dos agentes que procuravam melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos seus empregados, ao ex-ind\u00edgena que se tornava, ele pr\u00f3prio, num pr\u00f3spero organizador de exposi\u00e7\u00f5es de outros ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>A fotografia a multiplicar o efeito das exposi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3996\" aria-describedby=\"caption-attachment-3996\" style=\"width: 398px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3996\" style=\"font-weight: bold; font-size: 1rem; -webkit-user-drag: none; display: inline-block; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-bottom: -1ex;\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1.jpg\" alt=\"\" width=\"398\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1.jpg 1477w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-231x300.jpg 231w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-768x998.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-788x1024.jpg 788w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-250x325.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-550x715.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-800x1040.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-138x180.jpg 138w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo1-385x500.jpg 385w\" sizes=\"auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3996\" class=\"wp-caption-text\">Postais fotogr\u00e1ficos, com estereoscopias (imagens duplicadas que quando\u00a0 vistas atrav\u00e9s de lente pr\u00f3pria para o efeito, criam a ilus\u00e3o de tridimensionalidade) realizadas por Julien Damoy, a mulheres vindas do Gana em exposi\u00e7\u00e3o no <em>Jardin d&#8217;Acclimatation<\/em>\u00a0de Paris em 1903. Impressos em Fran\u00e7a, Paris. N\u00e3o circulados. Cole\u00e7\u00e3o da autora.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">A fotografia, cuja vulgariza\u00e7\u00e3o coincidiu com a prolifera\u00e7\u00e3o deste fen\u00f3meno, converteu-se no instrumento de prova visual aliado destas teorias. Tal como as pr\u00f3prias encena\u00e7\u00f5es que reproduzia, a imagem fotogr\u00e1fica criava a ilus\u00e3o da autenticidade necess\u00e1ria ao discurso cient\u00edfico. Assim, al\u00e9m dos in\u00fameros tratados cient\u00edficos escritos acerca destes indiv\u00edduos onde o nome pr\u00f3prio era substitu\u00eddo pelo tipo a que pertenciam, a fotografia surge como a principal respons\u00e1vel pela mem\u00f3ria destes eventos &#8211; e muitas vezes era mesmo o souvenir que os visitantes levavam para casa depois da experi\u00eancia (v. fig. 6). Em muita da produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica desta altura \u00e9 dif\u00edcil distinguir a imagem tirada num jardim parisiense ou no <em>habitat<\/em> de origem dos retratados. Os fot\u00f3grafos procuravam esse efeito. Franz Boas (1858-1942), por exemplo, antrop\u00f3logo conhecido pela forma como questionou pressupostos muito enraizados de superioridade e inferioridade entre os seres humanos, ao publicar um estudo sobre o cerimonialismo entre os Kwakiutl, fotografou-os durante a <em>Columbian Exposition <\/em>de 1893.<\/p>\n<div class=\"mceTemp\"><\/div>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o de grupos de &#8220;nativos&#8221;, \u00e0 volta de 1900, em Paris, foi produzindo v\u00e1rias s\u00e9ries de postais fotogr\u00e1ficos: em primeiro lugar, porque pessoas de cada nova tribo que chegava ao <em>Jardin d\u2019Acclimation<\/em> de Paris, por exemplo, eram fotografadas para aparecer nos postais que depois os visitantes adquiriam. Dessa produ\u00e7\u00e3o, podemos estabelecer uma divis\u00e3o, entre aqueles postais que deixam antever o p\u00fablico europeu do outro lado das barreiras, e aqueles que convocam um olhar amb\u00edguo, ignorando todos os sinais do local onde se encontra o objecto de exposi\u00e7\u00e3o. A legenda do postal diz que a imagem \u00e9 em Paris, mas o que \u00e9 vis\u00edvel reproduz &#8220;a \u00c1frica&#8221; ou &#8220;a \u00c1sia&#8221; que se quer mimetizar. Tiradas de dentro dos recintos por fot\u00f3grafos que saltam as grades, ou do lado de fora, as fotografias, impressas aos milhares, transformam-se em sinais permanentes de espect\u00e1culos que se caracterizavam pela sua efemeridade. As representa\u00e7\u00f5es bidimensionais dos postais fotogr\u00e1ficos contribu\u00edram tanto como as pr\u00f3prias exposi\u00e7\u00f5es para divulgar a imagem do colonizado no espa\u00e7o da cultura visual do colonizador.<\/p>\n<p>Se o fot\u00f3grafo, que muitas vezes era tamb\u00e9m o antrop\u00f3logo, o ge\u00f3grafo, o m\u00e9dico, o militar, ou o membro da administra\u00e7\u00e3o colonial, an\u00f3nimos cidad\u00e3os de uma na\u00e7\u00e3o quase sempre colonizadora, acediam como observadores &#8211; atrav\u00e9s das exposi\u00e7\u00f5es ou da fotografia &#8211; aos valores de supremacia colonial, verificando visualmente a sua exist\u00eancia. O cidad\u00e3o comum pouco ou nada viajaria at\u00e9 \u00e0s col\u00f3nias, mas lia e, sobretudo, via muitas provas da sua exist\u00eancia: em jornais, livros de viagem populares ou eruditos, fotografias, gravuras, cartazes, exposi\u00e7\u00f5es universais e coloniais e, j\u00e1 no fim do s\u00e9culo XIX, em postais fotogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>A fotografia sob a forma do postal fotogr\u00e1fico multiplicou, e banalizou, estas imagens. O que \u00e9 que estes postais, de exposi\u00e7\u00f5es em Paris ou em tantos outros lugares, mostram? A nudez assexuada do \u201cbom selvagem\u201d rousseauniano ou o erotismo para o coleccionador de postais europeu? A imagem real dos usos e costumes de terras distantes ou a possibilidade de ver o corpo sem ter de o despir? Quando o traje da mulher n\u00e3o ocidental lhe cobria o corpo, ent\u00e3o o fot\u00f3grafo, que era quase sempre um homem, podia mesmo despi-lo para melhor satisfazer os olhares e as expectativas daqueles que iriam adquirir os postais ou ver as exposi\u00e7\u00f5es (mesmo que as baixas temperaturas fossem uma crueldade ou a nudez ferisse o seu pudor, como aconteceu nalguns casos).<\/p>\n<p>A fotografia pode servir aqui de met\u00e1fora para um outro aspecto insepar\u00e1vel deste fen\u00f3meno: o modo como, no contexto das exposi\u00e7\u00f5es, o homem encontra legitimidade para olhar para o corpo de mulheres que s\u00e3o quase sempre negras e origin\u00e1rias de territ\u00f3rios colonizados. Nas exposi\u00e7\u00f5es, como na fotografia, a legitimidade cient\u00edfica da antropologia ou dos conhecimentos coloniais serviu para que os corpos de mulheres negras pudessem estar acess\u00edveis, a homens, mas tamb\u00e9m a mulheres e crian\u00e7as, de um modo que n\u00e3o acontecia com os corpos de mulheres brancas que, quando erotizados, permaneciam no campo visual restrito e masculino da pornografia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4001\" aria-describedby=\"caption-attachment-4001\" style=\"width: 406px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4001\" style=\"-webkit-user-drag: none; display: inline-block; margin-left: auto; margin-right: auto; margin-bottom: -1ex;\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6.jpg\" alt=\"\" width=\"406\" height=\"277\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6.jpg 1920w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-300x204.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-768x523.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-135x93.jpg 135w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-250x170.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-550x375.jpg 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-800x545.jpg 800w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-264x180.jpg 264w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-440x300.jpg 440w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/FV_zoo6-734x500.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 406px) 100vw, 406px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4001\" class=\"wp-caption-text\">Verso de postal fotogr\u00e1fico <em>Caravanne Indienne\u00a0<\/em>no <em>Jardin d&#8217;Acclimatation<\/em>\u00a0de Paris em 1906. &#8220;Souvenir d&#8217;une promenade&#8221;. Circulado em 1906. Cole\u00e7\u00e3o da autora.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">Se as exposi\u00e7\u00f5es de seres humanos s\u00e3o indissoci\u00e1veis do contexto do colonialismo ocidental, os estudos sobre este fen\u00f3meno reflectem muitas vezes sobre a sua resson\u00e2ncia contempor\u00e2nea, nomeadamente nos <em>reality shows<\/em>. Apesar de este tipo de programas ser muitas vezes apresentado como reflexo de uma cultura contempor\u00e2nea de sobreexposi\u00e7\u00e3o da intimidade, a ponto de se considerar que as fronteiras da dignidade humana est\u00e3o a ser ultrapassadas de uma forma antes nunca vista, os estudos sobre os &#8220;zoos humanos&#8221; e os circos mostram como a explora\u00e7\u00e3o exibicionista de seres humanos tem uma longa hist\u00f3ria. De facto, seja em rela\u00e7\u00e3o a programas televisivos em que a intimidade dos sentimentos \u00e9 devassada, ou a outros tipos de espect\u00e1culo que desumanizam e objectificam a identidade de quem \u00e9 observado, o desejo do olhar do p\u00fablico serviu, e serve, muitas vezes para desresponsabilizar eticamente aqueles que det\u00eam o poder sobre o vis\u00edvel e sobre o &#8220;espect\u00e1culo&#8221;, tal como o teorizou Guy Debord.<\/p>\n<p>Hoje, os eventos designados como &#8220;zoos humanos&#8221; subsistem impressos na materialidade visual de postais fotogr\u00e1ficos que tendo sido produzidos no passado, ainda existem no presente. Em lojas de postais, feiras da ladra e velharias, ou reproduzidas no vasto com\u00e9rcio de postais <em>online<\/em>, a sua abund\u00e2ncia \u00e9 reveladora da popularidade destes eventos. As imagens de seres humanos sem nome e sem identidade, legendadas com a sua origem geogr\u00e1fica e, por vezes, a cidade onde estavam expostos, multiplicaram, em 1900 como agora, o efeito das exposi\u00e7\u00f5es muito para l\u00e1 do tempo e do espa\u00e7o onde tiveram lugar. Tornaram-se a prova do encontro fotogr\u00e1fico. Hoje, est\u00e3o sujeitas ao escrut\u00ednio cr\u00edtico de textos acad\u00e9micos e de exposi\u00e7\u00f5es que as analisam, questionam e contextualizam historicamente, tal como identificam as hierarquias, desigualdades, racismo e viol\u00eancia imbu\u00eddas em tantos da experi\u00eancia destes encontros de corpos e olhares num mesmo espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m formas de recuperar a sua subjectividade e individualidade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Publicado no\u00a0blog-site Grupo de Investiga\u00e7\u00e3o Imp\u00e9rios, Colonialismo e Sociedades P\u00f3s-Coloniais do ICS-ULisboa, <a href=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/\">https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/filipa-vicente-exposicoes-seres-humanos-europa-seculo-xix-xx<\/a>, 2019-09-17.<\/p>\n<p>Uma primeira vers\u00e3o\u00a0 foi publicada, em 2003, como recens\u00e3o a\u00a0<em>Zoos humains: de la V\u00e9nus Hottentote aux Reality Shows (<\/em>Paris: \u00c9ditions La D\u00e9couverte, 2002),\u00a0in <em>Estudos do S\u00e9culo XX<\/em>, n. 3, 2003, pp. 389-95.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o \u00e0 In\u00eas Ponte, ao Jos\u00e9 Miguel Ferreira, ambos meus colegas no ICS-ULisboa, e ao S\u00edlvio Marcus de Souza Correa, da Universidade Federal de Santa Catarina, a leitura,\u00a0sugest\u00f5es e cr\u00edticas que tanto beneficiaram este texto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Podemos perguntarmo-nos se faz sentido usar uma express\u00e3o que perpetua ela pr\u00f3pria a viol\u00eancia intrinseca ao acto de expor seres humanos perante o olhar de outros seres humanos, em circunst\u00e2ncias de grande desigualdade.&#8221; Ensaio de Filipa Lowndes Vicente.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4009,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_cbd_carousel_blocks":"[]","_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[33,40],"tags":[282,120,105,287,92,228,129,285,307],"class_list":["post-3990","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensaios","category-investigacao","tag-colonialism","tag-europa","tag-gender","tag-material-culture","tag-museum","tag-popular-culture","tag-racism","tag-visual-culture","tag-science"],"translation":{"provider":"WPGlobus","version":"3.0.0","language":"pt","enabled_languages":["en","pt"],"languages":{"en":{"title":true,"content":true,"excerpt":true},"pt":{"title":true,"content":true,"excerpt":true}}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3990"}],"version-history":[{"count":44,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3990\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4669,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3990\/revisions\/4669"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4009"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}