{"id":4929,"date":"2020-02-11T10:10:53","date_gmt":"2020-02-11T10:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/?p=4929"},"modified":"2021-10-19T17:57:30","modified_gmt":"2021-10-19T17:57:30","slug":"p-a-r-o-i-d-e-a-poesia-moderna-como-pratica-anticolonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/p-a-r-o-i-d-e-a-poesia-moderna-como-pratica-anticolonial\/","title":{"rendered":"P-A-R-A-O-I-D-\u00c9: A poesia moderna como pr\u00e1tica anticolonial"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">P-A-R-A-O-I-D-\u00c9: A poesia moderna como pr\u00e1tica anticolonial<\/p>\n<p>De<a href=\"http:\/\/www.patricialino.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0Patr\u00edcia Lino<\/a>\u00a0(UCLA)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A alma do homem portugu\u00eas \u00e9 universal<br \/>\nt\u00e3o universal que<br \/>\ns\u00f3 ele a entende<br \/>\nANTICORPO. CAP. III<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>1. \u03a0<\/strong><strong>\u03b1\u03c1\u1ff3\u03b4\u03af\u03b1<\/strong><\/p>\n<p>No que respeita \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos g\u00e9neros liter\u00e1rios, a disposi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica dos textos n\u00e3o est\u00e1 apenas ligada \u00e0 qualidade liter\u00e1ria do texto propriamente dito, mas \u00e0 estrutura a que, desde do in\u00edcio da sua cria\u00e7\u00e3o, ele dever\u00e1 pertencer. Entre os g\u00e9neros liter\u00e1rios, que se dividem aristotelicamente em duas categorias, trag\u00e9dia e com\u00e9dia ou tr\u00e1gico e c\u00f3mico, constam o poema \u00e9pico, a s\u00e1tira ou a par\u00f3dia. <em>Paraoid\u00e9<\/em> significa, em termos literais, um <em>canto<\/em> (<em>oid\u00e9<\/em>) <em>paralelo<\/em> (<em>para<\/em>). Pode tamb\u00e9m significar um canto que se faz <em>contra <\/em>(<em>para<\/em>) ou que existe <em>perante<\/em> (<em>para<\/em>) outra coisa. Por formar-se a partir do texto <em>original<\/em>, o objeto par\u00f3dico ou a reprodu\u00e7\u00e3o do <em>original<\/em> foi considerada inferior. Assenta, al\u00e9m disso, na gargalhada, fen\u00f3meno que, para os Antigos, ficava atr\u00e1s da seriedade de g\u00e9neros como a \u00e9pica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4933\" aria-describedby=\"caption-attachment-4933\" style=\"width: 443px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4933\" title=\"1. Passagem de O Kit de Sobreviv\u00eancia do Descobridor Portugu\u00eas no Mundo Anticolonial. \" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-300x187.png\" alt=\"\" width=\"443\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-300x187.png 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-768x479.png 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-250x156.png 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-550x343.png 550w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-288x180.png 288w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1-481x300.png 481w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frasquinho_1.png 785w\" sizes=\"auto, (max-width: 443px) 100vw, 443px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4933\" class=\"wp-caption-text\">1. Passagem de <em>O Kit de Sobreviv\u00eancia do Descobridor Portugu\u00eas no Mundo Anticolonial<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong style=\"font-size: 1rem;\"><em>2. A par\u00f3dia \u00e9 a par\u00f3dia do entendimento redutor da par\u00f3dia<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A par\u00f3dia n\u00e3o se livrou do r\u00f3tulo por s\u00e9culos. A intimidade com que se apropria do original (aqui, em sentido amplo) custou-lhe um lugar no topo da hierarquia. Ao contr\u00e1rio da s\u00e1tira, que satiriza uma ideia ou comunidade gerais, o exerc\u00edcio par\u00f3dico \u00e9 cruelmente espec\u00edfico. E, por ser considerada inferior, a par\u00f3dia consiste sempre numa par\u00f3dia do entendimento redutor de si mesma.<\/p>\n<p>O valor do exerc\u00edcio par\u00f3dico, uma apropria\u00e7\u00e3o pessoal e direta, determina-se a partir da sua compet\u00eancia. Para que a par\u00f3dia resulte, o texto original tem de ser conhecido do(a) leitor(a), porque a par\u00f3dia, al\u00e9m de ser um discurso duplo (c\u00f3pia e nega\u00e7\u00e3o do <em>parodiado<\/em>), \u00e9 a total invers\u00e3o do c\u00f3digo estabelecido pelo <em>original<\/em>.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 1rem;\"><em>3. A gargalhada antinestesiante<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A gargalhada suscitada pelo sistema, reguladora e purgativa, n\u00e3o partilha, com a gargalhada par\u00f3dica, uma fun\u00e7\u00e3o c\u00e1ustica e ferozmente cr\u00edtica. Ao contr\u00e1rio da primeira, a gargalhada par\u00f3dica, corrosiva e desconfort\u00e1vel, escapa ao controlo do(a) leitor(a). Escapa, na verdade, ao controlo do(a) autor(a).<\/p>\n<figure id=\"attachment_4937\" aria-describedby=\"caption-attachment-4937\" style=\"width: 402px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4937\" title=\"2. PORTUGAL. Partes 1 e 2. Poema visual. 2019. \" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Portugal-2019-300x221.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Portugal-2019-300x221.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Portugal-2019-250x184.jpg 250w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Portugal-2019-245x180.jpg 245w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Portugal-2019-408x300.jpg 408w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Portugal-2019.jpg 530w\" sizes=\"auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4937\" class=\"wp-caption-text\">2. <em>PORTUGAL.<\/em> Partes 1 e 2. Poema visual. 2019.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong style=\"font-size: 1rem;\"><em><a href=\"http:\/\/www.patricialino.com\/anticorpo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">4. ANTICORPO. A Par\u00f3dia do Imp\u00e9rio Ris\u00edvel<\/a><\/em> (2019-2020)<\/strong><\/p>\n<p>O <em>ANTICORPO<\/em>, um livro audiovisual, par\u00f3dia do discurso colonial portugu\u00eas, foi antecedido por outros trabalhos. Entre eles, o poema visual <em>PORTUGAL<\/em>, o poema miniatura <em>MUSEU DOS DESCOBRIMENTOS: PORTUGAL 2019<\/em> e o livro <em>O KIT DE SOBREVIV\u00caNCIA DO DESCOBRIDOR PORTUGU\u00caS NO MUNDO ANTICOLONIAL<\/em>. A dimens\u00e3o po\u00e9tica crescentemente interdisciplinar destes textos p\u00f5e em causa a forma tradicional do poema, que n\u00e3o deixa de ser, ainda que pontualmente, o modelo usado pelo discurso colonial e colonizador. Por outras palavras e sob a forma de pergunta: o poema interdisciplinar par\u00f3dico anticolonial amplia as dimens\u00f5es do poema tradicional?<\/p>\n<p><strong><em>5. O corpo invisibilizado<\/em> <\/strong><\/p>\n<p>O <em>ANTICORPO<\/em>, nega\u00e7\u00e3o do corpo individual (o corpo invisibilizado pela cria\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio ou de um corpo coletivo) e, ao mesmo tempo, o corpo paralelo que se rebela, que existe <em>contra<\/em>, forma-se a partir da combina\u00e7\u00e3o do texto, do som e da imagem. O processo transdisciplinar do ANTICORPO desenvolve-se na seguinte ordem: texto, adapta\u00e7\u00e3o musical do texto, adapta\u00e7\u00e3o do texto musical \u00e0 imagem, montagem.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 1rem;\"><em>6. A arte de ser coerentemente portugu\u00eas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos afirmar que o discurso colonial portugu\u00eas, que tem muitos rostos, n\u00edveis e ferramentas, \u00e9 uma par\u00f3dia de si mesmo. O homem portugu\u00eas colonial existe coerentemente dentro de Portugal, um pa\u00eds que, por sua vez, existe para dentro, olhando para si mesmo; mais concretamente, para o que foi.<\/p>\n<p>Parece-me, al\u00e9m do mais, que a seriedade do discurso do homem portugu\u00eas colonial parte de algumas ideias centrais que mais n\u00e3o s\u00e3o do que o reflexo de um complexo de inferioridade com consequ\u00eancias devastadoras: o egocentrismo exacerbado, a ilus\u00e3o do direito \u00e0 propriedade, o controlo, e por isso, a necessidade de hierarquizar os corpos, o conhecimento e as disciplinas; a heteronormatividade ou a masculinidade t\u00f3xica, o <em>branqueamento<\/em> do mundo ou o engrandecimento ou embelezamento da viol\u00eancia sobre o Outro.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 1rem;\"><em>7. O humor emp\u00e1tico-cr\u00edtico<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O <em>ANTICORPO, <\/em>um livro audiovisual desconfort\u00e1vel e desagrad\u00e1vel, re\u00fane as palavras, as imagens e os sons que n\u00e3o querem ser vistos nem escutados pela l\u00f3gica colonial e assenta num exerc\u00edcio de empatia, em que a empatia e o c\u00f3mico se confundem. A confus\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, pois, perante o pensamento colonial anest\u00e9sico, o riso faz mais do que suscitar o caos. D\u00e1 a v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>*******************************<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.patricialino.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Patr\u00edcia Lino<\/a>\u00a0(Portugal, 1990) \u00e9 professora universit\u00e1ria e poeta. Ensina literaturas e cinema luso-brasileiros na UCLA (University of California, Los Angeles). \u00c9 a autora de\u00a0Antil\u00f3gica\u00a0(2018) e\u00a0Manoel de Barros e A Poesia C\u00ednica (2019). Dirigiu\u00a0Vibrant Hands\u00a0(EUA, 2019) e\u00a0Anticorpo.\u00a0Uma Par\u00f3dia do Imp\u00e9rio Ris\u00edvel\u00a0(EUA, 2019). Publicou, apresentou e exp\u00f4s ensaios, poemas e ilustra\u00e7\u00f5es em mais de cinco pa\u00edses. A sua investiga\u00e7\u00e3o centra-se, neste momento, na poesia contempor\u00e2nea, culturas visual e audiovisual, par\u00f3dia e anticolonialismo, intermedialidade e cinema luso-brasileiro. \u00c9 editora da revista de poesia e cr\u00edtica\u00a0Virada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em &#8220;P-A-R-O-I-D-\u00c9: A poesia moderna como pr\u00e1tica anticolonial&#8221;, Patr\u00edcia Lino apresenta uma an\u00e1lise do discurso colonial portugu\u00eas a partir do seu livro audiovisual &#8220;ANTICORPO. 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