{"id":1180,"date":"2018-02-16T17:10:02","date_gmt":"2018-02-16T17:10:02","guid":{"rendered":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/?p=1180"},"modified":"2021-05-13T07:40:56","modified_gmt":"2021-05-13T07:40:56","slug":"escola-de-verao-de-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/escola-de-verao-de-fotografia\/","title":{"rendered":"\u00abFotografia: Arquivo, Teoria, Hist\u00f3ria\u00bb Escola de Ver\u00e3o, ICS-ULisboa, Set 2017, por Filipa Lowndes Vicente"},"content":{"rendered":"<p>O interesse pela fotografia enquanto objecto de reflex\u00e3o no \u00e2mbito das ci\u00eancias sociais e humanas \u00e9 cada vez maior. Ao conceber e coordenar a <a href=\"http:\/\/www.ics.ul.pt\/instituto\/?doc=35200000001&amp;ln=p&amp;mm=4&amp;mnid=3&amp;ctmid=5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Escola de Ver\u00e3o <em>Fotografia: Arquivo, Teoria, Hist\u00f3ria<\/em><\/a>, que decorreu no ICS-UL entre 18 e 22 de Setembro de 2017, tentei explorar alguns dos caminhos te\u00f3ricos, hist\u00f3ricos e cr\u00edticos que se t\u00eam centrado na fotografia, mas tamb\u00e9m oferecer aos participantes a possibilidade de contactar diretamente com o objecto-fotografia e com os espa\u00e7os onde ele se encontra.\u00a0A Maria Goretti Matias, respons\u00e1vel pela P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, e a Cl\u00e1udia de Andrade, respons\u00e1vel por todo o apoio \u00e0s Escolas de Ver\u00e3o, contribu\u00edram para que tudo corresse o melhor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Foram assim, cinco temas em cinco dias, em que as manh\u00e3s decorreram sempre no ICS a ouvir e a dialogar com os oradores convidados para, \u00e0 tarde, visitar v\u00e1rios lugares da cidade de Lisboa: arquivos, exposi\u00e7\u00f5es, museus, cole\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m um est\u00fadio fotogr\u00e1fico, onde a fotografia n\u00e3o se guarda mas se produz, como aconteceu ali mesmo \u00e0 nossa frente, segundo t\u00e9cnicas inventadas no s\u00e9culo XIX. Na sala do ICS onde decorriam os trabalhos tamb\u00e9m estavam duas mesas: numa delas, uma sele\u00e7\u00e3o de todos os livros da Biblioteca ICS que se relacionavam com o tema da Escola; numa outra foi diariamente montada uma exposi\u00e7\u00e3o diferente de acordo com o tema do dia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1308\" aria-describedby=\"caption-attachment-1308\" style=\"width: 735px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1308 size-large\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/0_Composi-1024x447.jpg\" alt=\"\" width=\"735\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/0_Composi-1024x447.jpg 1024w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/0_Composi-300x131.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/0_Composi-768x335.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/0_Composi.jpg 1910w\" sizes=\"auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1308\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00f5es de fotografias diversas dos s\u00e9culos XIX e XX (col. privada), mudadas diariamente de acordo com o tema, numa mesa da Sala Polivalente do ICS-ULisboa. Set. 2017. Fotografias de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<ol>\n<li><strong> Teoria e Hist\u00f3ria da Fotografia<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na primeira manh\u00e3 Paulo Catrica, simultaneamente fot\u00f3grafo e historiador, tamb\u00e9m com uma vasta experi\u00eancia de ensino, deu-nos uma vis\u00e3o panor\u00e2mica dos estudos sobre fotografia e da vasta bibliografia que hoje existe sobretudo em l\u00edngua inglesa. \u00c0 tarde, atravess\u00e1mos a p\u00e9 o campus universit\u00e1rio e fomos ter \u00e0 Torre do Tombo, para duas visitas distintas: primeiro, tivemos o privil\u00e9gio de fazer uma visita guiada com Vitor Serr\u00e3o, historiador de arte e coorganizador da exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Verg\u00edlio Correia (1888-1944): um olhar fotogr\u00e1fico<\/em>. Homem de todos os of\u00edcios, Virg\u00edlio Correia fez da pr\u00e1tica fotogr\u00e1fica uma aliada da escrita e das suas viagens pelo pa\u00eds. O seu itiner\u00e1rio portugu\u00eas deveria concentrar-se na arquitetura mas, como revela o seu vast\u00edssimo esp\u00f3lio fotogr\u00e1fico at\u00e9 aqui desconhecido, foi muito para al\u00e9m disso. Ao tornar-se observador das popula\u00e7\u00f5es, sobretudo as mais pobres e rurais, mulheres, homens e crian\u00e7as sem nome, a trabalhar na terra, no artesanato ou no com\u00e9rcio, al\u00e9m de observador das igrejas e monumentos, o historiador da arte tornou-se tamb\u00e9m etn\u00f3grafo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1257\" aria-describedby=\"caption-attachment-1257\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1257\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_151416_edit-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_151416_edit-300x225.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_151416_edit-768x576.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_151416_edit.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1257\" class=\"wp-caption-text\">Interior da exposi\u00e7\u00e3o <em>Verg\u00edlio Correia (1888-1944): um olhar fotogr\u00e1fico<\/em>, Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_1261\" aria-describedby=\"caption-attachment-1261\" style=\"width: 263px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1261\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_160129_edit-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_160129_edit-225x300.jpg 225w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/1_20170918_160129_edit.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1261\" class=\"wp-caption-text\">O arquivista Fernando Costa mostra-nos alguns documentos fotogr\u00e1ficos do vasto esp\u00f3lio do Arquivo Nacional Torre do Tombo. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Seguimos depois para uma sala do Arquivo Nacional da Torre do Tombo onde o arquivista Fernando Costa, nos fez uma apresenta\u00e7\u00e3o muito \u00fatil acerca dos principais esp\u00f3lios fotogr\u00e1ficos da riqu\u00edssima cole\u00e7\u00e3o do Arquivo e nos explicou quais os passos para os podermos usar: as milhares de fotografias do jornal <em>O S\u00e9culo<\/em>, da <em>Flama<\/em> como do <em>Di\u00e1rio da Manh\u00e3<\/em> ou da <em>\u00c9poca<\/em>; esp\u00f3lios fotogr\u00e1ficos de institui\u00e7\u00f5es t\u00e3o centrais \u00e0 hist\u00f3ria portuguesa do s\u00e9culo XX como foi o <em>Secretariado Nacional de Informa\u00e7\u00e3o<\/em> (SNI), ou a <em>Ag\u00eancia Geral do Ultramar <\/em>(AGU) e a Companhia de Mo\u00e7ambique, dois arquivos especialmente ricos para a hist\u00f3ria recente do colonialismo portugu\u00eas. A Torre do Tombo possui tamb\u00e9m conjuntos de fotografia associados a pessoas individuais, como \u00e9 o caso de v\u00e1rios presidentes da Rep\u00fablica ou de personagens como Paiva Couceiro, pol\u00edtico, militar e administrador colonial que viveu entre 1861 e 1944, per\u00edodo em que a fotografia se democratizou e banalizou globalmente. Durante a visita tivemos oportunidade de ver \u2013 e tocar, com luvas \u2013 muitos exemplos destes esp\u00f3lios fotogr\u00e1ficos. Para l\u00e1 da visualiza\u00e7\u00e3o digital, um dos prop\u00f3sitos da Escola de Ver\u00e3o foi precisamente o de promover o contacto com a materialidade da fotografia, com o objecto tridimensional que o \u00e9cran de computador tende a uniformizar e simplificar. Acab\u00e1mos a visita numa sala que, sendo um espa\u00e7o fundamental de qualquer arquivo, n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel aos leitores \u2013 o lugar onde especialistas em restauro trabalham na preserva\u00e7\u00e3o dos objetos do arquivo, os manuscritos, livros e fotografia. A Carla Lobo mostrou-nos v\u00e1rios exemplos distintos de tecnologias fotogr\u00e1ficas e os respectivos desafios para a sua conserva\u00e7\u00e3o e restauro. Tamb\u00e9m cont\u00e1mos com o saber e entusiasmo de Silvestre Lacerda, Diretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, ele pr\u00f3prio muito interessado em fotografia.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> Hist\u00f3ria da fotografia portuguesa: os primeiros tempos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O tema do segundo dia foi a hist\u00f3ria da fotografia portuguesa. Come\u00e7amos por ouvir a Margarida Medeiros, professora de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Univ. Nova de Lisboa com uma vasta obra publicada sobre fotografia, e a Em\u00edlia Tavares, curadora para a \u00e1rea da fotografia e novos media do Museu do Chiado e tamb\u00e9m autora de v\u00e1rios trabalhos fundamentais sobre fotografia. Em 2015, a Em\u00edlia e a Margarida foram as curadoras de uma interessant\u00edssima exposi\u00e7\u00e3o que teve lugar no Museu do Chiado em Lisboa e no Museu Soares dos Reis, no Porto, <em>Tesouros da Fotografia Portuguesa no s\u00e9culo XIX<\/em> e foi sobre este projeto que nos vieram falar. N\u00e3o existe &#8220;uma&#8221; hist\u00f3ria da fotografia portuguesa, mas &#8220;v\u00e1rias&#8221; hist\u00f3rias. Na hist\u00f3ria que elas contaram, atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o e cat\u00e1logo, a fotografia foi pensada a partir de temas diferentes, com m\u00faltiplos autores e com crit\u00e9rios que desafiam a ideia de validade est\u00e9tica com que por vezes a hist\u00f3ria da arte limitou a fotografia. Ainda nessa manh\u00e3, ouvimos o Nuno Borges de Ara\u00fajo &#8211; investigador em hist\u00f3ria da fotografia, fot\u00f3grafo e tamb\u00e9m colecionador &#8211; com uma apresenta\u00e7\u00e3o onde fic\u00e1mos a saber mais sobre os diferentes formatos e usos da fotografia oitocentista: a passagem da imagem \u00fanica para a imagem reproduzida, uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que transformou a fotografia no documento visual dominante da contemporaneidade; as tens\u00f5es entre as pr\u00e1ticas autodidactas e as profissionais; ou a mobilidade fotogr\u00e1fica, favorecida pela <em>carte-de-visite<\/em>, o retrato em formato pequeno que podia ser enviado pelo correio e que pode ser considerado na genealogia da <em>selfie<\/em> contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Logo a seguir \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es, sempre na Sala Polivalente logo \u00e0 entrada do edif\u00edcio do ICS-ULisboa, subimos ao primeiro andar onde se encontra o <a href=\"http:\/\/www.ahsocial.ics.ulisboa.pt\/atom\/index.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Arquivo de Hist\u00f3ria Social<\/a>, dentro da Biblioteca, coordenada por Paula Costa. No Arquivo, coordenado pela historiadora do ICS-ULisboa, Rita Almeida de Carvalho, fomos recebidos pela equipa formada por Madalena Reis e Andreia Parente, funcion\u00e1rias da Biblioteca, e por Maria Coutinho, doutorada em Hist\u00f3ria da arte, e desde h\u00e1 algum tempo a trabalhar na inventaria\u00e7\u00e3o do Arquivo, um lugar com Fundos muito ricos, v\u00e1rios ainda por trabalhar. Uma das caracter\u00edsticas destes Fundos \u00e9 o de conterem v\u00e1rios tipos de documenta\u00e7\u00e3o, manuscritos, livros, fotografias, folhetos ou posters e de eles pr\u00f3prios favorecerem uma vis\u00e3o hol\u00edstica, onde os diferentes materiais associados a uma biografia espec\u00edfica, n\u00e3o devem ser separados.<\/p>\n<p>Vimos alguns exemplos de fotografia pertencentes a <em>Fundos Documentais<\/em> de origem particular: o Esp\u00f3lio Pinto Quartim, jornalista, onde se encontra o arquivo fotogr\u00e1fico da revista anarquista <em>Renova\u00e7\u00e3o<\/em>, muito interessante para quem queira estudar o movimento anarquista e a resist\u00eancia pol\u00edtica ao Estado Novo; a documenta\u00e7\u00e3o que pertenceu a Alfredo Henrique Pinto da Silva, importante republicano e pastor protestante que se destacou na luta anti-esclavagista no contexto colonial portugu\u00eas, tendo sido fundador da Sociedade Anti-Esclavagista. O Arquivo tem ainda v\u00e1rios outros Fundos, como aquele relacionado com o Movimento Nacional Feminino, fundado por Cec\u00edlia Supico Pinto, ainda a ser inventariado, ou uma colec\u00e7\u00e3o de propaganda do Eixo e dos Aliados da II Guerra Mundial. Um lugar a visitar, aberto a investigadores e j\u00e1 com muita informa\u00e7\u00e3o escrita e visual dispon\u00edvel online.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1306\" aria-describedby=\"caption-attachment-1306\" style=\"width: 735px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1306 size-large\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2_Composi-1024x454.jpg\" alt=\"\" width=\"735\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2_Composi-1024x454.jpg 1024w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2_Composi-300x133.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2_Composi-768x340.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2_Composi.jpg 1892w\" sizes=\"auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1306\" class=\"wp-caption-text\">Tr\u00eas momentos da realiza\u00e7\u00e3o de uma fotografia: demonstra\u00e7\u00e3o da tecnologia fotogr\u00e1fica oitocentista do col\u00f3dio h\u00famido por Rute de Carvalho Magalh\u00e3es. Uma participante da Escola de Ver\u00e3o fotografa com o seu telem\u00f3vel o \u00faltimo momento do processo de revela\u00e7\u00e3o. Silverbox, Lisboa. Set. 2017. Fotografias de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nessa tarde fizemos uma dupla visita, ambas na zona do Rato. Primeiro, fomos \u00e0 <em>Silverbox<\/em> onde a Rute de Carvalho Magalh\u00e3es fez uma demonstra\u00e7\u00e3o de uma tecnologia fotogr\u00e1fica oitocentista, o col\u00f3dio h\u00famido, que teve no fot\u00f3grafo Carlos Relvas (1838-1894) um dos seus principais adeptos. O andar da Rua Braancammp, de tectos altos e estilo arte nova contribuiu para a recria\u00e7\u00e3o de um est\u00fadio fotogr\u00e1fico oitocentista onde duas pessoas escolhidas por sorteio tiveram o privil\u00e9gio de ser fotografadas com esta t\u00e9cnica. Seguiu-se uma demonstra\u00e7\u00e3o de todo o processo de revela\u00e7\u00e3o no laborat\u00f3rio escuro onde se deu a primeira exposi\u00e7\u00e3o da placa aos qu\u00edmicos que lhe fixaram a imagem. Seguimos depois para uma outra sala onde o fogo e a \u00e1gua, como numa sess\u00e3o de magia, selaram a impress\u00e3o at\u00e9 ao momento final. Para muitos dos presentes foi o primeiro confronto com a lentid\u00e3o laboratorial do processo fotogr\u00e1fico anal\u00f3gico. Praticantes di\u00e1rios da fotografia digital, da sua imediatez e facilidade, pudemos ali testemunhar, e compreender melhor, o &#8220;antes&#8221; e o &#8220;durante&#8221; dos objetos que apenas conhecemos no seu &#8220;depois&#8221;, em papel, vidro ou ferro, as imagens que, feitas no passado, est\u00e3o hoje nos espa\u00e7os do presente: nas nossas casas, nos arquivos, nas feiras e outros espa\u00e7os comerciais. Uma fotografia \u00fanica e irrepet\u00edvel &#8211; o instante estagnado &#8211; a contrariar o paradigma da reprodu\u00e7\u00e3o da imagem que Walter Benjamin j\u00e1 identificou no seu conhecido ensaio <em>A obra de arte na era da sua reproductibilidade t\u00e9cnica<\/em>, que come\u00e7ou a escrever em 1936 s\u00f3 tendo sido publicado em 1955 (em Portugal foi publicado pela Rel\u00f3gio de \u00c1gua em 1992, no livro <em>Sobre arte, t\u00e9cnica, linguagem e pol\u00edtica<\/em>).<\/p>\n<figure id=\"attachment_1196\" aria-describedby=\"caption-attachment-1196\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1196\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170919_171806_edit-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170919_171806_edit-300x225.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170919_171806_edit-768x576.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170919_171806_edit.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1196\" class=\"wp-caption-text\">Interior da exposi\u00e7\u00e3o <em>A Imagem Paradoxal. Francisco Afonso Chaves (1857-1926)<\/em>, Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural e da Ci\u00eancia da Universidade de Lisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Seguimos a p\u00e9 para o Museu de Hist\u00f3ria Natural, ali perto na Rua da Escola Polit\u00e9cnica, onde a Em\u00edlia Tavares e o Victor dos Reis nos fizeram uma visita guiada pela obra fotogr\u00e1fica de um ex\u00edmio e polifac\u00e9tico cientista. <em>A Imagem Paradoxal. Francisco Afonso Chaves (1857-1926<\/em>), tal como j\u00e1 acontecera em Verg\u00edlio Correia, percorremos a obra fotogr\u00e1fica de um n\u00e3o-fot\u00f3grafo que escolheu a estereoscopia &#8211; a imagem dupla que colocada num visor criava a ilus\u00e3o da tridimensionalidade &#8211; como suporte para as suas quase sete mil imagens. Estas fotografias foram feitas no \u00e2mbito do seu trabalho de naturalista e viajante ligado a uma cole\u00e7\u00e3o museol\u00f3gica de hist\u00f3ria natural. O esp\u00f3lio esteve mais de 50 anos depositado no Museu Carlos Machado, na capital a\u00e7oreana de Ponta Delgada, at\u00e9 ser identificado e revelado em toda a sua riqueza atrav\u00e9s de uma trilogia de exposi\u00e7\u00f5es e um cat\u00e1logo organizados pelo Victor e pela Em\u00edlia. Entre a ci\u00eancia e a arte, o levantamento fotogr\u00e1fico de Afonso Chaves atravessa v\u00e1rias outras fronteiras, dos A\u00e7ores em terra e mar, \u00e0 \u00c1frica que ele conheceu numa expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou aos principais museus de hist\u00f3ria natural europeus.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> Imagens em conflito: pol\u00edtica, mem\u00f3ria, imp\u00e9rio<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Quarta-feira foi a vez de pensarmos e vermos a fotografia na intersec\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica, imp\u00e9rio e mem\u00f3rias e p\u00f3s-mem\u00f3rias coloniais, temas centrais ao <em>Grupo de Investiga\u00e7\u00e3o Imp\u00e9rios, Colonialismo e Sociedades P\u00f3s-Coloniais<\/em>. A Catarina Laranjeiro, antrop\u00f3loga que combina o cinema, a arte e antropologia e est\u00e1 a concluir uma tese de doutoramento sobre cruzamentos entre cinema e pol\u00edtica no contexto da Luta de Liberta\u00e7\u00e3o na Guin\u00e9-Bissau, apresentou um estudo de caso juntamente com a In\u00eas Galv\u00e3o. A In\u00eas foi, assim, simultaneamente participante da Escola e oradora, al\u00e9m de tamb\u00e9m fazer parte do <em>GI Imp\u00e9rios<\/em>. Na investiga\u00e7\u00e3o que realiza para a sua tese, a fotografia \u00e9 tanto um dos objetos de estudo como uma metodologia de trabalho de campo. Oferecer aos retratados da Tabanca, na Guin\u00e9-Bissau, as fotografias que lhes fez aproximou-a da comunidade. Esta experi\u00eancia levou-a a uma compara\u00e7\u00e3o entre a fotografia etnogr\u00e1fica e de fam\u00edlia, assim como a uma abordagem feminista \u00e0s imagens.<\/p>\n<p>Ambas as investigadoras centraram a sua apresenta\u00e7\u00e3o nas imagens que hoje circulam na internet de Carmen Pereira, l\u00edder das lutas de liberta\u00e7\u00e3o na Guin\u00e9-Bissau, para chegarem \u00e0 conclus\u00e3o que &#8211; afinal &#8211; as fotografias n\u00e3o s\u00e3o dela. Com uma arma num bra\u00e7o e um beb\u00e9 no outro, mulher-guerrilheira e mulher-m\u00e3e, a imagem, ic\u00f3nica, imbu\u00eda a dupla contribui\u00e7\u00e3o feminina nos movimentos de resist\u00eancia ao colonialismo. Mesmo que o retrato n\u00e3o correspondesse \u00e0 pessoa que est\u00e1 descrita na legenda. Miguel Bandeira Jer\u00f3nimo, o orador seguinte, \u00e9 investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e tem m\u00faltiplas publica\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de hist\u00f3ria internacional e transnacional do imperialismo, como o livro <em>The &#8216;Civilising Mission&#8217; of Portuguese Colonialism, 1870-1930<\/em> [editada anteriormente em portugu\u00eas pela <a href=\"https:\/\/www.imprensa.ics.ul.pt\/\">Imprensa de Ci\u00eancias Sociais<\/a>. Jer\u00f3nimo veio falar de imagens e viol\u00eancia, ou de den\u00fancia de viol\u00eancia, atrav\u00e9s do caso de Alice Harris e do seu marido, John Harris, defensores de um humanitarismo protestante. A prova fotogr\u00e1fica, no seu duplo sentido de prova material e de prova dos maus tratos perpetrados contra africanos em contexto laboral-colonial.<\/p>\n<p>Afonso Dias Ramos \u00e9 doutorado pela UCL com uma tese intitulada <em>Imageless in Angola: Living through the aftermath of war. Reinventing the photographic medium in a transnational age<\/em>, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia pol\u00edtica e fotografia na arte contempor\u00e2nea. Nessa manh\u00e3, explorou os usos de imagens no in\u00edcio da &#8220;guerra colonial&#8221;, tal como foi\u00a0denominada pelos portugueses, que desde 1961 op\u00f4s um Portugal colonizador a uma Angola colonizada a lutar pela sua independ\u00eancia. Ramos mostrou como para al\u00e9m da den\u00fancia ou do protesto, a fotografia de atrocidade tamb\u00e9m foi usada como incentivo a uma maior viol\u00eancia por parte daqueles que &#8211; na fotografia &#8211; surgiam como v\u00edtimas. As atrocidades perpetradas contra seres humanos foram usadas por Portugal de m\u00faltiplas formas e perante v\u00e1rias audi\u00eancias, nacionais, coloniais e internacionais, da plateia nova-iorquina das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u00e0s reprodu\u00e7\u00f5es em livros e folhetos. Aquilo que se pode considerar como o &#8220;arquivo visual da guerra colonial&#8221;, uma guerra que durou 13 anos, corresponde, segundo o orador, sobretudo a tr\u00eas dias sucessivos em Mar\u00e7o de 1961. A resson\u00e2ncia destas primeiras imagens perdurou muito para l\u00e1 do momento da sua produ\u00e7\u00e3o e algumas delas foram mesmo reproduzidas noutros contextos com novos significados.<\/p>\n<p>Catarina Sim\u00e3o, arquiteta, investigadora independente, artista e realizadora veio falar-nos do seu filme <em>Djambo<\/em>. Djambo \u00e9 o nome do protagonista fot\u00f3grafo, testemunha e participante dos movimentos de independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique, que no filme nos fala quer do seu presente p\u00f3s-colonial, quer do seu passado colonial. Foi nesse passado que Djambo acompanhou Samora Machel em diferentes momentos do seu percurso, at\u00e9 mesmo no desastre de avi\u00e3o onde este perdeu a vida e onde o fot\u00f3grafo sobreviveu. Sim\u00e3o filma Djambo a regressar aos lugares desse passado hist\u00f3rico de transi\u00e7\u00e3o e com as fotografias que ele pr\u00f3prio tirou, a olhar para elas e a relembrar o momento, o lugar e as pessoas que a fotografia juntou num mesmo instante. Finalmente ouvimos a In\u00eas Ponte, antrop\u00f3loga, a falar-nos sobre o seu projeto <a href=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/pt\/mobilising-archives-photography-in-southwest-angola\/\"><em>Mobilising Archives: photography in Southwest Angola<\/em> <\/a>desenvolvido no \u00e2mbito de um p\u00f3s-doutoramento no ICS-ULisboa\u00a0 A nossa colega no <em>Grupo de Investiga\u00e7\u00e3o Imp\u00e9rios, Colonialismo e Sociedades P\u00f3s-coloniais<\/em> usa a fotografia quer como documento de arquivo visual colonial que lhe interessa analisar &#8211; a fotografia com inten\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica produzida no \u00e2mbito do Museu de Etnologia, entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1990 -, quer como metodologia e pr\u00e1tica do seu trabalho de antrop\u00f3loga. Um dos seus estudos de caso \u00e9 a cole\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica realizada por Ant\u00f3nio Carreira, nascido em Cabo-Verde, e produzida no contexto das Miss\u00f5es de Prospec\u00e7\u00e3o Etnogr\u00e1fica que desenvolveu para o ent\u00e3o designado Museu de Etnologia do Ultramar entre 1965 e 1969.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1197\" aria-describedby=\"caption-attachment-1197\" style=\"width: 263px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1197\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170920_162919_edit-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170920_162919_edit-225x300.jpg 225w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/20170920_162919_edit.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1197\" class=\"wp-caption-text\">Colec\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, Arquivo Hist\u00f3rico Militar, Lisboa. Set. 2017, Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_1206\" aria-describedby=\"caption-attachment-1206\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1206\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Foto_grupo-300x174.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Foto_grupo-300x174.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Foto_grupo-768x444.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Foto_grupo.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1206\" class=\"wp-caption-text\">Participantes da Escola de Ver\u00e3o na visita ao Arquivo Hist\u00f3rico Militar com o diretor, Coronel Carreira Martins, e o subdiretor, Major Cunha Roberto. Set. 2017, Fotografia gentilmente cedida pelo AHM<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nessa tarde, seguimos para o Arquivo Hist\u00f3rico Militar, em Santa Apol\u00f3nia, junto ao Museu Militar, mas prestes a ser transferido para um edif\u00edcio espec\u00edfico, junto ao Pante\u00e3o Nacional, ali vizinho. No Arquivo fomos recebidos pelo seu subdiretor, Major Cunha Roberto, que depois de uma apresenta\u00e7\u00e3o sobre as principais cole\u00e7\u00f5es desse riqu\u00edssimo Arquivo, sobretudo aquelas referentes \u00e0 hist\u00f3ria colonial, nos preparou uma sele\u00e7\u00e3o de materiais fotogr\u00e1ficos. Usando luvas pudemos folhear o <em>\u00c1lbum de Angola, <\/em>com fotografias de\u00a0Veloso de Castro nas primeiras duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX; fotografias do Arnaldo Garcez, fot\u00f3grafo oficial do Corpo Expedicion\u00e1rio Portugu\u00eas durante a I Guerra Mundial; ou \u00e1lbuns de visitas oficiais \u00e0s col\u00f3nias ao longo do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> Arquivos tem\u00e1ticos de fotografia: do retrato criminal ao \u00e1lbum de fam\u00edlia<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O pen\u00faltimo dia do Curso, quinta-feira dia 21 de Setembro, foi dedicado aos <em>Arquivos tem\u00e1ticos de fotografia: do retrato criminal ao \u00e1lbum de fam\u00edlia<\/em>. Leonor S\u00e1 come\u00e7ou por nos falar precisamente dos retratos judici\u00e1rios em Portugal nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, tema da sua tese de doutoramento em Estudos de Cultura, na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa. Enquanto conservadora respons\u00e1vel do Museu de Pol\u00edcia Judici\u00e1ria em Lisboa, S\u00e1 conhece bem a hist\u00f3ria europeia dos usos da fotografia como forma de classificar, identificar e controlar aqueles indiv\u00edduos que, por diferentes motivos, se encontravam \u00e0 margem das normas sociais, quer por terem cometido pequenos ou grandes crimes, quer por possu\u00edrem doen\u00e7as mentais e f\u00edsicas pass\u00edveis de serem apreendidas pela visualidade fotogr\u00e1fica.\u00a0A oradora mostrou-nos as muitas <em>carte-de-visite<\/em> exemplificativas desta forma de controlo social mas tamb\u00e9m exemplos de <em>mugshots<\/em> contempor\u00e2neos, iconizados por Andy Warhol, onde a fotografia multiplicada e divulgada serve para encontrar o criminoso fugido.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1272\" aria-describedby=\"caption-attachment-1272\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1272\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_104354_edit-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_104354_edit-300x225.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_104354_edit-768x576.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_104354_edit.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1272\" class=\"wp-caption-text\">Apresenta\u00e7\u00e3o de Leonor S\u00e1 sobre retratos judici\u00e1rios na Escola de Ver\u00e3o, ICS-ULisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quer Paulo Ribeiro Baptista quer Filipe Figueiredo exploraram a riqueza da fotografia de teatro atrav\u00e9s de v\u00e1rios estudos de caso e tipologias, das imagens de cenas teatrais, \u00e0 iconologia de atrizes e atores, as imagens de desfiles, cortejos, ou prociss\u00f5es de rua ou a arquitetura teatral, t\u00e3o presente nos espa\u00e7os urbanos da modernidade. Figueiredo est\u00e1 envolvido no <a href=\"http:\/\/opsis.fl.ul.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">projeto Opsis<\/a>, uma base iconogr\u00e1fica de teatro em Portugal, enquanto Baptista, curador no Museu do Teatro, tem nas 130,000 imagens da Casa Vasques, preservadas na Torre do Tombo, um dos seus pr\u00f3ximos projetos. Paulo Baptista falou-nos ainda num dos seus outros temas de investiga\u00e7\u00e3o que resultou num livro sobre a casa fotogr\u00e1fica de Emilio Biel. O alem\u00e3o que tanto fotografou o Portugal das \u00faltimas d\u00e9cadas de Oitocentos, entre a paisagem natural e a industrializa\u00e7\u00e3o, sobretudo atrav\u00e9s dos caminhos-de-ferro do norte, notabilizou-se tamb\u00e9m como editor de livros fotogr\u00e1ficos e como um dos principais utilizadores da t\u00e9cnica da fototipia.<\/p>\n<p>Cosimo Chiarelli e Ana Gandum, exploraram a ideia de &#8220;\u00e1lbum&#8221; de formas diferentes. Chiarelli, historiador da fotografia que tamb\u00e9m se tem dedicado \u00e0 fotografia de teatro em It\u00e1lia e em Fran\u00e7a, falou sobre os dois \u00e1lbuns de Sarawack,\u00a0na ilha de Born\u00e9u na Mal\u00e1sia, com fotografias da d\u00e9cada de 1860 que Margaret Brooke ofereceu ao naturalista Italiano Edoardo Beccari e est\u00e3o hoje no arquivo do Museu de Hist\u00f3ria Natural de Floren\u00e7a. Brit\u00e2nica, tornou-se Rainha de Sarawak (1849-1936) ao casar com o Rajah brit\u00e2nico de Sarawak, Charles Anthony Johnson Brooke, um modelo singular de hegemonia imperial que distinguiu esta regi\u00e3o da maioria dos espa\u00e7os asi\u00e1ticos sob dom\u00ednio brit\u00e2nico. Esta viagem dos objetos fotogr\u00e1ficos &#8211; fotografias coladas em \u00e1lbuns &#8211; de Sarawak para uma cidade italiana exemplifica bem uma caracter\u00edstica da fotografia logo desde a sua inven\u00e7\u00e3o. Objectos pequenos, port\u00e1teis e imbu\u00eddos de afectividade e rela\u00e7\u00f5es pessoais, as fotografias circularam num espa\u00e7o globalizado, a acompanhar a mobilidade das pessoas que os possu\u00edam ou colecionavam, ou a serem enviados pelas redes de correspond\u00eancia postal que unia aqueles que se encontravam em lugares distintos.<\/p>\n<p>Chiarelli analisa o \u00e1lbum nos interst\u00edcios de dois paradigmas visuais: por um lado, o do <em>scrapbook<\/em>\u00a0oitocentista, pr\u00e1tica muito popular e dom\u00e9stica, em que recortes em papel (de ilustra\u00e7\u00f5es a fotografias ou postais) eram colados nas folhas cartonadas de um \u00e1lbum vazio destinado a esse efeito; por outro lado, o do <em>Atlas Mn\u00e9mosyne<\/em>, concebido pelo historiador do da Antiguidade e do Renascimento Aby Warburg entre 1924 e 1929, data da sua morte. Cerca de mil imagens, simbolicamente colocadas lado a lado ou justapostas em dezenas de pain\u00e9is, levariam a uma melhor compreens\u00e3o das mudan\u00e7as hist\u00f3ricas tal como das diferen\u00e7as entre espa\u00e7os geogr\u00e1ficos, norte-sul, este-oeste. &#8220;Espa\u00e7os de pensamento&#8221;, o <em>Atlas<\/em> pioneiro de Warburg pode ajudar a pensar o \u00e1lbum privado e familiar, onde algu\u00e9m tem que decidir o que colar e como colar, o que expor, o que deitar fora, o que guardar e como guardar, segundo crit\u00e9rios onde a subjectividade individual se cruza com as tipologias classificat\u00f3rias dispon\u00edveis. Quem faz o \u00e1lbum pode ou n\u00e3o ser tamb\u00e9m quem faz as fotografias. Nestas tipologias n\u00e3o-escritas, alguns temas predominam sobre outros &#8211; um \u00e1lbum de uma viagem, um \u00e1lbum de um casamento ou de um batizado, um \u00e1lbum de um soldado na guerra ou um \u00e1lbum de uma inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ana Gandum apresentou o tema da sua tese de doutoramento pr\u00e1tico e te\u00f3rico em Estudos Art\u00edsticos na Universidade Nova de Lisboa: a circula\u00e7\u00e3o da fotografia vernacular &#8211; no sentido de vulgar, comum &#8211; entre a comunidade de migrantes portugueses no Brasil no per\u00edodo 1890-1970. Atrav\u00e9s da sua abordagem pudemos conhecer melhor mais um exemplo das viagens da fotografia entre geografias, afectos e dist\u00e2ncias. Viagens estas que tamb\u00e9m podem ser pensadas para l\u00e1 dos espa\u00e7os dom\u00e9sticos por onde passaram: quando morre a pessoa que possu\u00eda as fotografias, ou quando uma mudan\u00e7a de morada ou de pa\u00eds obriga a levar umas coisas e a deixar outras, as fotografias acabam muitas vezes abandonadas, esquecidas ou mesmo deitadas para o lixo. Estes lugares do presente onde se encontram as fotografias do passado devem tamb\u00e9m ser objeto de reflex\u00e3o &#8211; nos espa\u00e7os comerciais de feiras de velharias, em livrarias em segunda m\u00e3o ou no mercado crescente da internet onde colecionadores ou curiosos as compram. &#8220;Fotografias encontradas&#8221; (&#8220;found photographs&#8221;) \u00e9 o nome atribu\u00eddo as estas imagens descontextualizadas dos lugares e pessoas que as produziram.<\/p>\n<p>Os \u00e1lbuns de fam\u00edlia s\u00e3o um dos objetos da pesquisa de Gandum que, como explicou, come\u00e7aram por ser estudados pela sociologia e pela antropologia para agora serem tamb\u00e9m um tema privilegiado pelos estudos de fotografia a partir das mais diversas abordagens. Mem\u00f3rias e emo\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o prismas para pensar estas fotografias atravessadas por camadas de m\u00faltiplos discursos. Para l\u00e1 sua visualidade, v\u00e1rios estudos recentes, como os de Tina M. Campt, t\u00eam explorado as qualidades h\u00e1pticas da fotografia &#8211; as suas qualidades t\u00e1cteis, sens\u00edveis ao toque, sobretudo quando o toque se cruza com a vis\u00e3o. Pegar, tocar numa fotografia enquanto se olha para ela. Sobretudo quando existe a dist\u00e2ncia ou a morte a separar-nos da pessoa representada. Ana Gandum, juntamente com In\u00eas Abreu e Silva est\u00e1 tamb\u00e9m envolvida num projeto de cria\u00e7\u00e3o de um s\u00edtio online de fotografia vernacular portuguesa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1273\" aria-describedby=\"caption-attachment-1273\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1273\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_163217_edit-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_163217_edit-300x225.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_163217_edit-768x576.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/3_20170921_163217_edit.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1273\" class=\"wp-caption-text\">Lu\u00eds Pav\u00e3o, conservador das cole\u00e7\u00f5es de fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa, mostra-nos o laborat\u00f3rio de restauro fotogr\u00e1fico. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p>A manh\u00e3 acabou com o artista Jo\u00e3o Paulo Serafim a falar sobre o seu trabalho fotogr\u00e1fico sobre colec\u00e7\u00f5es e museus. Com uma exposi\u00e7\u00e3o no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, com o qual o fot\u00f3grafo Afonso Chaves (1857-1926) esteve t\u00e3o envolvido, Serafim continua a explorar o seu interesse por arquivos, museus e colec\u00e7\u00f5es assim como as fronteiras entre o ficcional e o &#8220;verdadeiro&#8221; ou cient\u00edfico, onde se encontram aqueles objectos que passam o crivo do espa\u00e7o de classifica\u00e7\u00e3o ou de exposi\u00e7\u00e3o. Nessa tarde fomos visitar um Arquivo exemplar at\u00e9 por ter sido pioneiro na conserva\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o e digitaliza\u00e7\u00e3o dos seus vastos esp\u00f3lios fotogr\u00e1ficos &#8211; o Arquivo Municipal de Fotografia, situado na Rua da Palma, no Martim Moniz, desde h\u00e1 quase 25 anos. Divid\u00eddos em dois grupos para melhor conhecer os espa\u00e7os e as pessoas que trabalham nos v\u00e1rios departamentos do Arquivos, tivemos a oportunidade de conhecer os lugares onde se restauram as fotografias e de ouvir o seu respons\u00e1vel, Luis Pav\u00e3o, e a sua equipa. Com Jos\u00e9 Lu\u00eds Neto, conhecemos o Laborat\u00f3rio e com Paula Cunca, tamb\u00e9m participante da Escola, fic\u00e1mos a conhecer melhor as colec\u00e7\u00f5es e as formas de as aceder online, tal como vimos alguns exemplos de fotografias e de cat\u00e1logos de exposi\u00e7\u00f5es e projetos de investiga\u00e7\u00e3o levados a cabo pelo Arquivo. Os projetos educativos, determinantes na forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens que v\u00e3o ao Arquivo com a escola, foram-nos apresentados pela sua respons\u00e1vel, Vit\u00f3ria Pinheiro. A fotografia, digital, faz parte do quotidiano das gera\u00e7\u00f5es agora em idade escolar. Todos s\u00e3o fot\u00f3grafos. Mas muitos s\u00f3 no Arquivo \u00e9 que tiveram contacto pela primeira vez com a fotografia anal\u00f3gica, que dominou a tecnologia fotogr\u00e1fica durante cerca de 150 anos.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> Fotografia e pr\u00e1ticas art\u00edsticas<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na sexta feira dia 22, a manh\u00e3 come\u00e7ou da melhor forma &#8211; uma performance-confer\u00eancia da encenadora, atriz e dramaturga, Joana Craveiro. Fundadora e diretora art\u00edstica do Teatro do Vestido, Craveiro doutorou-se com uma tese-espect\u00e1culo que voltou a apresentar recentemente no Teatro S. Luiz, <em>Um Museu Vivo de Mem\u00f3rias Pequenas e Esquecidas<\/em>. Sentada na sala em penumbra, apenas uma l\u00e2mpada a iluminar uma pilha de documentos e fotografias na mesa \u00e0 sua frente, Craveiro ia encarnando v\u00e1rias personagens vindas de um passado recente. A mem\u00f3ria politizada de um Portugal marcado pelo 25 de Abril, os &#8220;antes&#8221;, &#8220;durantes&#8221; e &#8220;depois&#8221;, onde a fotografia despoleta mem\u00f3rias e p\u00f3s-mem\u00f3rias. As vozes das mulheres da revolu\u00e7\u00e3o, as personagens reais e ficcionadas que surgem do trabalho de entrevistas, de pesquisa em arquivo e de investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica feita por Joana Craveiro. Delfim Sardo, na discuss\u00e3o final, notou como os percursos biogr\u00e1ficos das pessoas dessa gera\u00e7\u00e3o e os materiais da fotografia anal\u00f3gica com os quais conviveram, chegavam a um fim simult\u00e2neo &#8211; se muitas das pessoas que a dramaturga entrevistava estavam a chegar ao fim da vida ou tinham j\u00e1 morrido, tamb\u00e9m a materialidade da fotografia que tanto marcara a rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria p\u00fablica e privada do s\u00e9culo XX desapareceu com a recente revolu\u00e7\u00e3o digital.<\/p>\n<p>Seguiram-se tr\u00eas artistas &#8211; todos eles desafiados a partilhar o lugar da fotografia nas suas pr\u00e1ticas art\u00edsticas. Andr\u00e9 Cepeda, entre o Porto e Lisboa, mostrou-nos alguns dos seus projetos fotogr\u00e1ficos transformados em livros fotogr\u00e1ficos. Pauliana Valente Pimentel, artista visual e fot\u00f3grafa freelancer, tanto trabalha para revistas e jornais como para exposi\u00e7\u00f5es colectivas e individuais. O seu trabalho sobre a comunidade transg\u00e9nero do Mindelo, capital da ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, foi o resultado de uma estadia prolongada de conv\u00edvio com um grupo de pessoas que vivem numa mesma zona, marginal e pobre da cidade. Ana Janeiro usa a fotografia na sua pesquisa art\u00edstica. Auto-representa\u00e7\u00e3o, performance e identidade est\u00e3o presentes em v\u00e1rios dos seus trabalhos e tamb\u00e9m no <em>\u00c1lbum \u00cdndia Portuguesa 1951-1961<\/em> onde a passagem da fam\u00edlia por uma Goa colonial lhe chegou \u00e0s m\u00e3os em forma de fotografias e cartas.<\/p>\n<p>Delfim Sardo, curador, professor convidado pelo Col\u00e9gio das Artes da Universidade de Coimbra, e respons\u00e1vel pela programa\u00e7\u00e3o de artes pl\u00e1sticas da Culturgest, em Lisboa, concluiu a manh\u00e3 com uma reflex\u00e3o sobre fotografia e artes visuais em Portugal centrada no livro de 2015 <em>Fotografia: modo de usar<\/em>, que publicou com Em\u00edlia Tavares e S\u00e9rgio Mah.\u00a0Devemos escolher uma imagem \u00fanica ou uma s\u00e9rie de imagens, tendo em conta que tantas narrativas s\u00f3 fazem sentido em conjunto? Este foi um dos dilemas do projeto-livro que Sardo partilhou com os participantes. Uma das constata\u00e7\u00f5es da pesquisa sobre o panorama fotogr\u00e1fico nacional foi a de uma persist\u00eancia da auto-representa\u00e7\u00e3o em performances fotogr\u00e1ficas: de Aur\u00e9lia de Sousa, pintora oitocentista que (se) fotografava, a Helena Almeida ou a Jorge Molder. Sardo acabou por sublinhar a import\u00e2ncia das exposi\u00e7\u00f5es para dar a conhecer as obras que t\u00eam que ser vistas e discutidas para, poder\u00edamos acrescentar, &#8220;existirem&#8221;. As reprodu\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas de obras de arte &#8211; o <em>Museu Imagin\u00e1rio<\/em> que Andr\u00e9 Malraux concebeu em 1947 &#8211; n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Tamb\u00e9m precisamos de ver as obras na sua materialidade, num espa\u00e7o real e tridimensional que tamb\u00e9m \u00e9 ocupado por n\u00f3s.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1274\" aria-describedby=\"caption-attachment-1274\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1274\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/4_20170922_151311_edit-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/4_20170922_151311_edit-300x225.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/4_20170922_151311_edit-768x576.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/4_20170922_151311_edit.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1274\" class=\"wp-caption-text\">Visita \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o de fotografia da colec\u00e7\u00e3o NovoBancoPhoto, Espa\u00e7o NovoBanco, Lisboa. Set. 2017. Fotografia de Larissa R. Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na \u00faltima visita da semana tivemos a oportunidade de ver a melhor cole\u00e7\u00e3o de fotografia art\u00edstica contempor\u00e2nea, nacional e internacional, que existe em Portugal, a Cole\u00e7\u00e3o de Fotografia Contempor\u00e2nea Novo Banco, que em breve ser\u00e1 exposta em perman\u00eancia no Convento de S\u00e3o Francisco em Coimbra. Criada pelo antigo BES, e tornada conhecida pela institui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio BESPhoto, a cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 centrada na obra de artistas vivos. No Espa\u00e7o NovoBanco \u00e0 entrada do edif\u00edcio na Pra\u00e7a Marqu\u00eas de Pombal estava exposta uma pequena parte da colec\u00e7\u00e3o, que nos foi mostrada pelo conservador Rodrigo Bettencourt da C\u00e2mara. A\u00a0vasta maioria encontra-se guardada nas reservas do mesmo edif\u00edcio, onde tivemos a oportunidade de ver alguns exemplares, arquivados em estruturas assentes em calhas de ferro que se puxam para os tornar vis\u00edveis. O Arq. Arlindo Serr\u00e3o, Diretor do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o e de rela\u00e7\u00f5es Institucionais do banco, mostrou-nos a obra de autores como Cindy Sherman, Thomas Struth, Candida Hofer, Vito Acconci, Bernd &amp; Hilla Becher, William Eggleston, Robert Frank, Christian Boltanski, Sophie Calle ou Rineke Dijkstra, com os seus retratos de forcados de Vila Franca acabados de sair da Pra\u00e7a de Touros, s\u00e3o alguns dos nomes das mais de 1000 obras de 280 artistas de 38 nacionalidades (o cat\u00e1logo est\u00e1 online). Entre os artistas nacionais s\u00e3o v\u00e1rias as gera\u00e7\u00f5es presentes, de Helena Almeida a Gabriela Albergaria ou Filipa C\u00e9sar. Andr\u00e9 Cepeda, Pauliana Valente Pimentel, Jo\u00e3o Paulo Serafim e Paulo Catrica, oradores da Escola de Ver\u00e3o, est\u00e3o igualmente presentes na cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00e3o importantes como as oradores e oradores foram os participantes que se inscreveram na Escola de Ver\u00e3o e que a tornaram poss\u00edvel. Como afirmei na abertura da Escola, muitos deles, se n\u00e3o todos, poderiam ter sido as oradoras e oradores desta ou da pr\u00f3xima escola. Alguns est\u00e3o a fazer doutoramentos ou p\u00f3s-doutoramentos onde a fotografia \u00e9 o principal objecto de estudo, outros trabalham em arquivos fotogr\u00e1ficos, outros ainda s\u00e3o fot\u00f3grafos, outros ainda trabalham em arquivos ou, como no caso da jornalista do P\u00fablico Lucinda Canelas, t\u00eam na fotografia e na sua hist\u00f3ria um dos seus muitos interesses. Foi Lucinda Canelas que assinou um artigo sobre a exposi\u00e7\u00e3o que vimos no primeiro dia de curso &#8211; <em>Vergilio Correia (1888-1944): um olhar fotogr\u00e1fico<\/em>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1292\" aria-describedby=\"caption-attachment-1292\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1292\" src=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/5_20170922_204200_edit-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"196\" srcset=\"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/5_20170922_204200_edit-300x168.jpg 300w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/5_20170922_204200_edit-768x431.jpg 768w, https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/5_20170922_204200_edit.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1292\" class=\"wp-caption-text\">Senhor Jos\u00e9 Ramada, na Casa dos Amigos do Minho. Set. 2017. Fotografia de Maria Coutinho<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na noite do \u00faltimo dia junt\u00e1mo-nos todos num jantar inesquec\u00edvel numa pequena sala da Casa dos Amigos do Minho. Virada sobre a Rua do Benformoso, num pr\u00e9dio demasiado bonito para resistir \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que j\u00e1 tomou conta &#8211; tamb\u00e9m &#8211; do Intendente. A sala, despojada, onde jant\u00e1mos tinha apenas tr\u00eas fotografias na parede. A roupa, os \u00f3culos e as cores sumidas dos retratos de tr\u00eas homens situavam-nos na d\u00e9cada de 1970. A Larissa Ribeiro Cunha, a arquiteta brasileira que pela primeira vez saiu do Brasil para vir a Lisboa participar na Escola de Ver\u00e3o, e a Maria Coutinho foram as fot\u00f3grafas n\u00e3o-oficiais da noite. Como na tradi\u00e7\u00e3o indiana das pessoas se fazerem fotografar com os retratos dos seus familiares j\u00e1 mortos (como Christopher Pinney t\u00e3o bem explorou no seu livro <em>Camera Indica<\/em>) &#8211; uma forma de unir numa mesma imagem os vivos e os que j\u00e1 morreram &#8211; o Senhor Jos\u00e9 Ramada que nos serviu o jantar, posou junto aos tr\u00eas retratos dos fundadores. Antes j\u00e1 nos tinha contado como a Casa estava em risco de fechar, incapaz de responder \u00e0 press\u00e3o econ\u00f3mica que est\u00e1 a tomar conta daquela Lisboa durante tanto tempo marginal (acabou por fechar em dezembro de 2017). O espa\u00e7o surgira como lugar de conv\u00edvio para os migrantes internos que vinham do Minho para a capital \u00e0 procura de melhores oportunidades. Depois disso o Intendente tornou-se muitas coisas e tamb\u00e9m o lugar de emigrantes vindos de muitos lugares do mundo, da China, ao Bangladesh ou o Paquist\u00e3o. Hoje grande parte dos compradores dos belos edif\u00edcios oitocentistas do bairro s\u00e3o tamb\u00e9m estrangeiros mas ricos, e sobretudo invis\u00edveis. N\u00e3o s\u00e3o os que passam e param na Rua do Bemformoso. A noite acabou na Casa Independente &#8211; espa\u00e7o de copos como de arte, de m\u00fasica ao vivo como de livros e palavras &#8211; onde pelas paredes se expunham as fotografias resultantes do Workshop <em>Narrativas Fotogr\u00e1ficas no Intendente<\/em>, coordenado pela Pauliana Valente Pimentel, que falara nessa manh\u00e3, e frequentado por Jo\u00e3o Farelo, outro dos participantes da Escola de Ver\u00e3o. O melhor da semana foi termos chegado ao fim com vontade de nos voltarmos a encontrar para pensar, falar e ver fotografia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O interesse pela fotografia enquanto objecto de reflex\u00e3o no \u00e2mbito das ci\u00eancias sociais e humanas \u00e9 cada vez maior. <\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":1208,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_cbd_carousel_blocks":"[]","_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[33,64],"tags":[45,97,254,108,289,285],"class_list":["post-1180","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensaios","category-escola-de-verao","tag-africa","tag-archive","tag-art","tag-fotografia","tag-postcolonialism","tag-visual-culture"],"translation":{"provider":"WPGlobus","version":"3.0.0","language":"en","enabled_languages":["en","pt"],"languages":{"en":{"title":true,"content":true,"excerpt":true},"pt":{"title":true,"content":true,"excerpt":true}}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1180","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1180"}],"version-history":[{"count":99,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1180\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1676,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1180\/revisions\/1676"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1208"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gi-imperios.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}